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[14/11/2005]

Por que as mudanças são temidas?
Patrícia Bispo

Com a presença da Globalização as empresas viram-se obrigadas a acompanharem um processo de mudanças que nunca tem fim. E quem não estiver atento às transformações, fatalmente ficará para trás e terá chances significativas de ser engolido pelo mercado. Como as empresas são constituídas por pessoas, os profissionais também são convidados para participarem de processo e isso é cada vez mais comum. A questão, que causa dor de cabeça, surge quando as pessoas apresentam resistência ao novo, ao desconhecido, pois isso as leva a sair da chamada zona de conforto. "Costumo dizer que o termo mudança, no âmbito das organizações, tomou o lugar de progresso, e ele é tão rápido que não é mais conhecido assim: é chamado de mudança. Ao invés de desejá-la, as pessoas colocam-se contra ela", afirma Renilda Ouro, autora do livro "Mudança Organizacional: G Soluções Genéricas para Projetos, Editora Qualitymark. Em entrevista ao RH.com.br, Renilda, que também é consultora e atua no desenvolvimento de pessoas nas áreas de estratégia, gestão e Recursos Humanos, fala um pouco sobre sua obra e comenta quais os cuidados que um profissional de Recursos Humanos deve ter ao participar de um processo de mudança organizacional. Leia a entrevista e boa leitura!

RH.com.br - O que a motivou a escrever um livro sobre processo de mudanças, mesmo sabendo que esse tema já foi tão debatido no meio corporativo?
Renilda Ouro - Vivemos num contexto de e-planet, num mundo self-service, onde não parece tão inusitado nos imaginarmos entrando num restaurante através de uma porta-scanner e, ao cruzá-la, ser-nos disponibilizado um cardápio sugestivo, com base na leitura vitamínica e mineral feita, naquele momento, do nosso organismo: a dieta do dia ao molho cibernético. Parecia-me que a literatura relacionada à gestão estava longe das possibilidades de inovação presentes, e eu quis desafiá-la, criando um livro self-service, onde é o leitor que comanda a leitura, onde eu pudesse integrar, sem nada perder, o conteúdo conceitual à leveza e ao humor, onde se tornasse motivador ler e utilizar o livro, no dia-a-dia, não só em gestão de mudanças, mas na gestão empresarial.

RH - Qual o diferencial do seu trabalho em relação às outras obras que se encontram no mercado?
Renilda Ouro - Soluções genéricas, em formato de bula de medicamentos, são apresentadas ao mundo empresarial, sem descartar a possibilidade de sua utilização por leitores não familiarizados com a literatura de gestão. Saindo do cinza e penetrando no mundo das cores, envolvido por Rilke e Fernando Pessoa, o livro torna leve essa densa literatura, em trechos curtos e diretos, utilizando-se ainda de perguntas reflexivas que remetem à sua prática. Indicações, posologia, precauções, advertências, contra-indicações, efeitos colaterais, dentre outros, comparecem, trazendo à tona possibilidades de aprofundamento dos conhecimentos sobre gestão. O livro é uma verdadeira bula sobre gestão.

RH - Qual o público-alvo que a Sra. pretende alcançar com esse trabalho?
Renilda Ouro - O segmento ao qual ele estava destinado obviamente era o público das organizações, públicas e privadas. Surpreendeu-me que ele esteja sendo tão bem aceito também por leigos no assunto, que o têm utilizado para suas vidas pessoais, ratificando a hipóteses de que não há uma linha limítrofe entre o trabalho e a vida pessoal, principalmente num tempo em que fenômenos de todas as naturezas estão presentes para integrar pessoas a pessoas, negócios a pessoas, negócios a negócios. Aprender a viver uma coisa e outra se torna cada vez mais indispensável.

RH - Por que a Sra. afirma que sua obra também é indicada para profissionais de RH?
Renilda Ouro - Um grande amigo dessa área, de renome no setor empresarial, me disse: "O seu livro desmistifica as mudanças", dentre outros que lecionam em MBA da área e o estão assumindo como leitura indicada. Parece-me que a abrangência do livro vai ao encontro da ansiedade dos próprios alunos, em encontrar material que condense os conhecimentos existentes sem perder o conteúdo, e permitindo a apreensão deste conteúdo, coisa que o livro facilita, pelas histórias contadas, ilustrações que reforçam conceitos. Eu ratificaria este parecer quando o vejo também como um instrumento que pode agregar valor ao conhecimento já residente nas áreas de Recursos Humanos.

RH - Como o "Leia a Bula Antes de Mudar" está estruturado?
Renilda Ouro - Dentro do conceito de sua organização como bula de remédio, ele está estruturado em perguntas e respostas. Por exemplo: "Como a visão que temos do mundo influencia a nossa vida?", ou "Por que muitos projetos de mudança não trazem os ganhos previstos e efetivos? Ou ainda, "O que é chamado de custos invisíveis? Sua análise pode ampliar os ganhos das empresas? Na seqüência dessa lógica, ao final dos tópicos, encontram-se reflexões sobre o tema abordado, que geram a contextualização dos mesmos à realidade do leitor.

RH - Em que bases seu trabalho foi estruturado?
Renilda Ouro - O trabalho reúne a minha experiência em gestão e em conceituação, desenvolvimento e coordenação de mudanças, tanto em empresas públicas da administração direta, como em estatais e empresas privadas, corroborada por grandes mudanças que têm marcado a história da minha vida, no âmbito pessoal. Talvez isso tenha criado em mim a facilidade de falar sobre elas e de articular a aproximação entre vida pessoal e profissional. A minha pesquisa, pode-se dizer, foi vivencial, com todos os seus desafios, contados por sucessos e insucessos, como é o jogo da vida.

RH - Por que as pessoas sentem dificuldade quando precisam lidar com os processos de mudança?
Renilda Ouro - A história da humanidade é contada pelas mudanças, geralmente a partir de ações de chamados líderes, cujas conseqüências, em grande parte dela, ultrapassam as possibilidades de recuperação ou regeneração, pois não se pode precisar o que, em termos da história, foi construído ou destruído por líderes e seus seguidores. Admito, muitas vezes, que fantasiamos a vida, e depois não sabemos reconhecê-la como ela é. Se o que nos vem, em qualquer aspecto da vida, foge dos nossos parâmetros de aceitação, admitimos como mal-vindo, e imediatamente criamos nossa camada protetora, que acaba por não nos proteger, mas por nos deixar vulneráveis ao que não queremos enxergar, por não nos sentirmos aptos a lidar com, ou por termos aprendido, erradamente, que é assim que se deve proceder.

RH - Quais os principais fatores que devem estar presentes, para que o processo de mudança tenha sucesso?
Renilda Ouro - Eu diria que, dentre vários, a "cor", e fica aqui um pequeno trecho do livro - "No final da década de 60 assistíamos em preto e branco à mais recente série da TV: "Perdidos no Espaço". Para os que quisessem assistir em cores, a opção era adquirir uma tela plástica, adaptável ao tubo de imagem da televisão e ela poderia ser vista em tons de vermelho, azul e amarelo, em larga listras que tornavam o espetáculo, em camadas, colorido. Revoluções começavam a acontecer: era preciso reinventar! Os super-heróis entravam em cena, e dentre Batman e Super-homem, as opções já poderiam ser feitas. Apesar de toda a evolução ocorrida de lá para cá, em muitos aspectos estamos ainda no tempo das organizações que adquirem tela plástica para que a vida lá dentro seja vista mais colorida; não se chegou à era das cores próprias. Nem líderes que substituam suas gravatas ou jeans de fábrica por capas de látex conseguirão fazer as verdadeiras transformações, se não adotarem novos conceitos, adeqüados a um mundo que se mostra carente de mudanças sustentáveis e significativas".

RH - Que "receita" a Sra. indicaria para o profissional de RH que vai trabalhar num processo de mudança?
Renilda Ouro - Daria as da bula:
* Indicações: obtenha e aprofunde os conhecimentos sobre a mudança e razões para mudar.
* Propriedades: mapeie os elementos fundamentais para a preparação da mudança.
* Posologia: defina o projeto e como deve ser administrado.
* Composição: crie valor ao projeto utilizando o BSC - Balanced Scorecard.
* Informações: perceba e registre o que faz diferença, no projeto de mudança.
* Precauções: saiba os cuidados que o projeto de mudança requer.
* Advertências: desenvolva a capacidade de lidar com as reações adversas ao projeto de mudança.
* Avaliação dos benefícios: avalie e monitore o projeto e sua trajetória.
* Contra-indicações: saiba em que situações o projeto deve ser adiado.
* Interações medicamentosas: considere a interação com outros projetos.
* Efeitos colaterais: tome consciência sobre as disfunções que podem ocorrer durante o projeto de mudança.
* Superdosagem: evite a chegada do "tio Já que..." (estou fazendo isso, por que não aquilo?).
* Pacientes idosos: tire proveito dos conhecimentos por organizações maduras.
* Sugestões de laboratório:" Leia a Bula antes de Mudar!".

RH - Quais os principais erros que as empresas cometem ao implantar um processo de mudança?
Renilda Ouro - Muitas organizações deflagram o processo de mudança considerando que os seus objetivos já são conhecidos por todos ou não necessitam ser explicitados. Esse é o primeiro grande engano, e o primeiro passo para o surgimento dos primeiros impactos no ambiente: as resistências. Não só os decisores precisam conhecer os alicerces, os motivos e os objetivos da mudança. Sendo um processo de construção coletiva, é necessário que seja do conhecimento de todos. Do compartilhamento de objetivos à organização do projeto, se este necessitar ser estruturado, passando por patrocínio, volume de recursos adequados, envolvimento da equipe, sinalizações diversas por parte dos gestores, critérios para criação de valor, treinamento adequado, compreensão da dinâmica de funcionamento do negócio, dentre inúmeros outros fatores, a sua não observação pode comprometer os resultados do processo, e gerar grandes desperdícios de recursos, dentre eles, tempo, energia e dinheiro.

RH - A Sra. costuma afirmar para as empresas tomarem cuidado com as mudanças, pois essas nem sempre são embrulhadas para presente. Isso é um alerta que serve para qualquer organização?
Renilda Ouro - Hoje, o pé no acelerador da tecnologia puxa o social, o econômico, o cultural; poucos atropelam muitos, o grande come o pequeno, as exigências de multi tarefas são elevadas, e, embora com toda a tecnologia, o homem não conseguiu esticar o tempo. Costumo dizer que o termo mudança, no âmbito das organizações, tomou o lugar de progresso, e ele é tão rápido que não é mais conhecido assim: é chamado de mudança, e ao invés de desejá-la, as pessoas colocam-se contra ela. O alerta é no sentido de que todos os organismos, e aí se inserem as organizações, precisam adotar a mudança como um valor, e reconhecer que elas fazem parte da vida, e quando vêm, ditam suas próprias regras, que não são as nossas. Por isso, costumo dizer que nem sempre são embrulhadas para presente; por vezes são grandes caixas de surpresa, por outras atropelam e quando percebemos, já tomaram vulto irrevogável. No livro faço uma brincadeira musical, numa colocação que sugere: "Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais", e como tal temos que ter cuidado..., e "É preciso saber viver", e aprender a retirar as pedras do caminho.

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Patrícia Bispo
Jornalista responsável pelo conteúdo da comunidade virtual RH.com.br.

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10 de novembro de 2007 - Local: São Paulo

 

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