Com a presença da Globalização as empresas
viram-se obrigadas a acompanharem um processo de
mudanças que nunca tem fim. E quem não estiver atento às
transformações, fatalmente ficará para trás e terá
chances significativas de ser engolido pelo mercado.
Como as empresas são constituídas por pessoas, os
profissionais também são convidados para participarem de
processo e isso é cada vez mais comum. A questão, que
causa dor de cabeça, surge quando as pessoas apresentam
resistência ao novo, ao desconhecido, pois isso as leva
a sair da chamada zona de conforto. "Costumo dizer que o
termo mudança, no âmbito das organizações, tomou o lugar
de progresso, e ele é tão rápido que não é mais
conhecido assim: é chamado de mudança. Ao invés de
desejá-la, as pessoas colocam-se contra ela", afirma
Renilda Ouro, autora do livro "Mudança Organizacional: G
Soluções Genéricas para Projetos, Editora Qualitymark.
Em entrevista ao RH.com.br, Renilda, que também é
consultora e atua no desenvolvimento de pessoas nas
áreas de estratégia, gestão e Recursos Humanos, fala um
pouco sobre sua obra e comenta quais os cuidados que um
profissional de Recursos Humanos deve ter ao participar
de um processo de mudança organizacional. Leia a
entrevista e boa leitura!
RH.com.br - O que a motivou a escrever um
livro sobre processo de mudanças, mesmo sabendo que esse
tema já foi tão debatido no meio
corporativo?
Renilda Ouro - Vivemos num
contexto de e-planet, num mundo
self-service, onde não parece tão inusitado nos
imaginarmos entrando num restaurante através de uma
porta-scanner e, ao cruzá-la, ser-nos
disponibilizado um cardápio sugestivo, com base na
leitura vitamínica e mineral feita, naquele momento, do
nosso organismo: a dieta do dia ao molho cibernético.
Parecia-me que a literatura relacionada à gestão estava
longe das possibilidades de inovação presentes, e eu
quis desafiá-la, criando um livro self-service,
onde é o leitor que comanda a leitura, onde eu pudesse
integrar, sem nada perder, o conteúdo conceitual à
leveza e ao humor, onde se tornasse motivador ler e
utilizar o livro, no dia-a-dia, não só em gestão de
mudanças, mas na gestão empresarial.
RH - Qual o diferencial do seu trabalho em
relação às outras obras que se encontram no
mercado?
Renilda Ouro - Soluções genéricas, em
formato de bula de medicamentos, são apresentadas ao
mundo empresarial, sem descartar a possibilidade de sua
utilização por leitores não familiarizados com a
literatura de gestão. Saindo do cinza e penetrando no
mundo das cores, envolvido por Rilke e Fernando Pessoa,
o livro torna leve essa densa literatura, em trechos
curtos e diretos, utilizando-se ainda de perguntas
reflexivas que remetem à sua prática. Indicações,
posologia, precauções, advertências, contra-indicações,
efeitos colaterais, dentre outros, comparecem, trazendo
à tona possibilidades de aprofundamento dos
conhecimentos sobre gestão. O livro é uma verdadeira
bula sobre gestão.
RH - Qual o público-alvo que a Sra. pretende
alcançar com esse trabalho?
Renilda Ouro - O
segmento ao qual ele estava destinado obviamente era o
público das organizações, públicas e privadas.
Surpreendeu-me que ele esteja sendo tão bem aceito
também por leigos no assunto, que o têm utilizado para
suas vidas pessoais, ratificando a hipóteses de que não
há uma linha limítrofe entre o trabalho e a vida
pessoal, principalmente num tempo em que fenômenos de
todas as naturezas estão presentes para integrar pessoas
a pessoas, negócios a pessoas, negócios a negócios.
Aprender a viver uma coisa e outra se torna cada vez
mais indispensável.
RH - Por que a Sra. afirma que sua obra também
é indicada para profissionais de RH?
Renilda Ouro
- Um grande amigo dessa área, de renome no setor
empresarial, me disse: "O seu livro desmistifica as
mudanças", dentre outros que lecionam em MBA da área e o
estão assumindo como leitura indicada. Parece-me que a
abrangência do livro vai ao encontro da ansiedade dos
próprios alunos, em encontrar material que condense os
conhecimentos existentes sem perder o conteúdo, e
permitindo a apreensão deste conteúdo, coisa que o livro
facilita, pelas histórias contadas, ilustrações que
reforçam conceitos. Eu ratificaria este parecer quando o
vejo também como um instrumento que pode agregar valor
ao conhecimento já residente nas áreas de Recursos
Humanos.
RH - Como o "Leia a Bula Antes de Mudar" está
estruturado?
Renilda Ouro - Dentro do conceito
de sua organização como bula de remédio, ele está
estruturado em perguntas e respostas. Por exemplo: "Como
a visão que temos do mundo influencia a nossa vida?", ou
"Por que muitos projetos de mudança não trazem os ganhos
previstos e efetivos? Ou ainda, "O que é chamado de
custos invisíveis? Sua análise pode ampliar os ganhos
das empresas? Na seqüência dessa lógica, ao final dos
tópicos, encontram-se reflexões sobre o tema abordado,
que geram a contextualização dos mesmos à realidade do
leitor.
RH - Em que bases seu trabalho foi
estruturado?
Renilda Ouro - O trabalho reúne a
minha experiência em gestão e em conceituação,
desenvolvimento e coordenação de mudanças, tanto em
empresas públicas da administração direta, como em
estatais e empresas privadas, corroborada por grandes
mudanças que têm marcado a história da minha vida, no
âmbito pessoal. Talvez isso tenha criado em mim a
facilidade de falar sobre elas e de articular a
aproximação entre vida pessoal e profissional. A minha
pesquisa, pode-se dizer, foi vivencial, com todos os
seus desafios, contados por sucessos e insucessos, como
é o jogo da vida.
RH - Por que as pessoas sentem dificuldade
quando precisam lidar com os processos de
mudança?
Renilda Ouro - A história da
humanidade é contada pelas mudanças, geralmente a partir
de ações de chamados líderes, cujas conseqüências, em
grande parte dela, ultrapassam as possibilidades de
recuperação ou regeneração, pois não se pode precisar o
que, em termos da história, foi construído ou destruído
por líderes e seus seguidores. Admito, muitas vezes, que
fantasiamos a vida, e depois não sabemos reconhecê-la
como ela é. Se o que nos vem, em qualquer aspecto da
vida, foge dos nossos parâmetros de aceitação, admitimos
como mal-vindo, e imediatamente criamos nossa camada
protetora, que acaba por não nos proteger, mas por nos
deixar vulneráveis ao que não queremos enxergar, por não
nos sentirmos aptos a lidar com, ou por termos
aprendido, erradamente, que é assim que se deve
proceder.
RH - Quais os principais fatores que devem
estar presentes, para que o processo de mudança tenha
sucesso?
Renilda Ouro - Eu diria que, dentre
vários, a "cor", e fica aqui um pequeno trecho do livro
- "No final da década de 60 assistíamos em preto e
branco à mais recente série da TV: "Perdidos no Espaço".
Para os que quisessem assistir em cores, a opção era
adquirir uma tela plástica, adaptável ao tubo de imagem
da televisão e ela poderia ser vista em tons de
vermelho, azul e amarelo, em larga listras que tornavam
o espetáculo, em camadas, colorido. Revoluções começavam
a acontecer: era preciso reinventar! Os super-heróis
entravam em cena, e dentre Batman e Super-homem, as
opções já poderiam ser feitas. Apesar de toda a evolução
ocorrida de lá para cá, em muitos aspectos estamos ainda
no tempo das organizações que adquirem tela plástica
para que a vida lá dentro seja vista mais colorida; não
se chegou à era das cores próprias. Nem líderes que
substituam suas gravatas ou jeans de fábrica por capas
de látex conseguirão fazer as verdadeiras
transformações, se não adotarem novos conceitos,
adeqüados a um mundo que se mostra carente de mudanças
sustentáveis e significativas".
RH - Que "receita" a Sra. indicaria para o
profissional de RH que vai trabalhar num processo de
mudança?
Renilda Ouro - Daria as da bula:
*
Indicações: obtenha e aprofunde os conhecimentos sobre a
mudança e razões para mudar.
* Propriedades: mapeie
os elementos fundamentais para a preparação da
mudança.
* Posologia: defina o projeto e como deve
ser administrado.
* Composição: crie valor ao projeto
utilizando o BSC - Balanced Scorecard.
*
Informações: perceba e registre o que faz diferença, no
projeto de mudança.
* Precauções: saiba os cuidados
que o projeto de mudança requer.
* Advertências:
desenvolva a capacidade de lidar com as reações adversas
ao projeto de mudança.
* Avaliação dos benefícios:
avalie e monitore o projeto e sua trajetória.
*
Contra-indicações: saiba em que situações o projeto deve
ser adiado.
* Interações medicamentosas: considere a
interação com outros projetos.
* Efeitos colaterais:
tome consciência sobre as disfunções que podem ocorrer
durante o projeto de mudança.
* Superdosagem: evite a
chegada do "tio Já que..." (estou fazendo isso, por que
não aquilo?).
* Pacientes idosos: tire proveito dos
conhecimentos por organizações maduras.
* Sugestões
de laboratório:" Leia a Bula antes de Mudar!".
RH - Quais os principais erros que as empresas
cometem ao implantar um processo de
mudança?
Renilda Ouro - Muitas organizações
deflagram o processo de mudança considerando que os seus
objetivos já são conhecidos por todos ou não necessitam
ser explicitados. Esse é o primeiro grande engano, e o
primeiro passo para o surgimento dos primeiros impactos
no ambiente: as resistências. Não só os decisores
precisam conhecer os alicerces, os motivos e os
objetivos da mudança. Sendo um processo de construção
coletiva, é necessário que seja do conhecimento de
todos. Do compartilhamento de objetivos à organização do
projeto, se este necessitar ser estruturado, passando
por patrocínio, volume de recursos adequados,
envolvimento da equipe, sinalizações diversas por parte
dos gestores, critérios para criação de valor,
treinamento adequado, compreensão da dinâmica de
funcionamento do negócio, dentre inúmeros outros
fatores, a sua não observação pode comprometer os
resultados do processo, e gerar grandes desperdícios de
recursos, dentre eles, tempo, energia e dinheiro.
RH - A Sra. costuma afirmar para as empresas
tomarem cuidado com as mudanças, pois essas nem sempre
são embrulhadas para presente. Isso é um alerta que
serve para qualquer organização?
Renilda Ouro -
Hoje, o pé no acelerador da tecnologia puxa o
social, o econômico, o cultural; poucos atropelam
muitos, o grande come o pequeno, as exigências de multi
tarefas são elevadas, e, embora com toda a tecnologia, o
homem não conseguiu esticar o tempo. Costumo dizer que o
termo mudança, no âmbito das organizações, tomou o lugar
de progresso, e ele é tão rápido que não é mais
conhecido assim: é chamado de mudança, e ao invés de
desejá-la, as pessoas colocam-se contra ela. O alerta é
no sentido de que todos os organismos, e aí se inserem
as organizações, precisam adotar a mudança como um
valor, e reconhecer que elas fazem parte da vida, e
quando vêm, ditam suas próprias regras, que não são as
nossas. Por isso, costumo dizer que nem sempre são
embrulhadas para presente; por vezes são grandes caixas
de surpresa, por outras atropelam e quando percebemos,
já tomaram vulto irrevogável. No livro faço uma
brincadeira musical, numa colocação que sugere: "Ainda
somos os mesmos e vivemos como nossos pais", e como tal
temos que ter cuidado..., e "É preciso saber viver", e
aprender a retirar as pedras do caminho.