A Quarta Revolução da Informação

por Peter Drucker Exame
26/08/98

Ela já começou e está em curso no mundo das corporações. Pretende definir o significado e o propósito da informação nos negócios.



1 A próxima revolução da informação já está a caminho. Mas ela não vai atingir as áreas em que os cientistas, executivos e a indústria da informação esperam encontrá-la. Não é uma revolução na tecnologia, nas máquinas ou no software. É uma revolução de conceitos.


Até agora, a revolução da informação estava centralizada nos dados - sua coleta, transmito, análise e apresentação. Ela estava focada no chamado "T" da "IT" (Tecnologia da Informação). A próxima revolução da informação tenta responder à seguinte pergunta: qual é o significado da informação e qual é o seu propósito? Esse questionamento exige de imediato, a redefinição não apenas das tarefas que são realizadas com a ajuda da informação,mas também das instituições que efetuam essas tarefas.

A próxima revolução da informação certamente atingirá todas as grandes instituições. Ela já começou e atua com maior intensidade dentro do mundo corporativo. Nas empresas, está forçando a redefinição do conceito de empreendimento empresarial. Ou seja, passa a considerá-lo como a "criação de valor e de riqueza".

2 Há 50 anos, por volta de 1950, a opinião que prevalecia era de que o mercado para aquele novo "milagre", o computador, estaria no exército e na astronomia. Alguns de nós, no entanto, argumentávamos que o computador encontraria mais aplicações nos negócios e teria impacto sobre eles. Estes poucos também previam - novamente em conflito com a opinião prevalecente (até praticamente para todo mundo na IBM, naquele tempo apenas iniciando sua ascensão) - que no mundo dos negócios o computador seria mais do que uma máquina de somar muito veloz efetuando tarefas próprias de alguns escriturários, como a folha de pagamento e contas de telefone. Em particular, nós dissidentes discordávamos, é claro. Mas todos nós, inconformistas (incluindo Russel Ackoff, John Diebold e J. W. Forrester), aceitávamos uma coisa: o computador, a curto prazo, revolucionaria o trabalho dos executivos. O computador teria seus maiores e mais rápidos impactos na política, nas estratégias e nas decisões empresariais.

Nós não poderíamos estar mais enganados. Os impactos revolucionários, até agora, centralizaram-se onde nenhum de nós naquele tempo conseguiu prever: nas operações. Nenhum de nós, por exemplo, poderia ter imaginado o software agora disponível para os arquitetos. A uma fração do custo e do tempo tradicional, ele desenha os grandes edifícios: seus suprimentos de água e esgoto, sua iluminação e aquecimento central, trabalho que alguns anos atrás absorvia quase dois terços do tempo e do custo do projeto de um prédio de escritórios, uma grande escola, um hospital ou uma prisão.

Nenhum de nós poderia, naquela época, ter imaginado o software disponível para os residentes cirúrgicos dos dias de hoje. Ele permite que esses profissionais efetuem operações virtuais, cujos resultados incluem virtualmente "matar" pacientes, se os residentes fizerem o movimento cirúrgico errado. Até recentemente, os residentes raramente tinham oportunidade de observar uma operação completa antes de teminarem seus estágios.

Há 50 anos, ninguém poderia ter imaginado o software que habilita um grande fabricante de equipamentos agrícolas e de terraplanagem tal como a Carterpillar organizar suas operações com fábricas no mundo inteiro, visando serviços e necessidades individuais de seus clientes. E o computador tem tido um impacto semelhante nas operações bancárias, sendo provavelmente os bancos a indústria mais computadorizada nos dias de hoje.

Mas o computador e a tecnologia da informação que surgiram com ele não têm tido praticamente nenhum impacto na decisão de construir ou não um novo prédio de escritórios, uma escola, um hospital ou uma prisão. Eles não tiveram praticamente nenhum impacto na decisão de realizar uma cirurgia num paciente em estado crítico. Eles não tiveram nenhum impacto nas escolhas do fabricante de equipamento, ao decidir em que tipo de mercado ele deve entrar e com quais produtos. Ou ainda, na decisão de um grande banco de comprar outro grande banco. Para as tarefas de administração, a tecnologia da informação até agora tem sido uma produtora de dados em lugar de produtora de informação.

3 As pessoas tendem a colocar a culpa desse fracasso no que chamam de executivos "reacionários", da "velha escola". A explicação é equivocada. Os executivos não têm usado a nova tecnologia porque ela não lhes oferece a informação adequada às suas tarefas. Os dados disponíveis nos empreendimentos empresariais são ainda amplamente baseados no teorema do começo do século XlX, em que os baixos custos é que diferenciavam os empreendimentos e faziam-nos competir com maiores vantagens. Os dados são provenientes do sistema de contabilidade tradicional. A contabilidade foi criada pelo menos há 500 anos para prover os dados que uma companhia precisava para preservação de seus recursos e para a sua distribuição.

Mas nós começamos a perceber que nem a preservação dos recursos nem o controle dos custos eram tarefas dos executivos. Elas são tarefas operacionais. Um prejuízo sério no custo pode, de fato, destruir um negócio. Mas o sucesso de um negócio está baseado num processo totalmente diferente, a criação de valor e riqueza. Isso significa assumir riscos: na teoria dos negócios, na estratégia empresarial, em abandonar o velho e inovar, no equilíbrio entre o curto prazo e o longo prazo, no equilíbrio em rentabilidade imediata e fatia de mercado. Estas decisões são as verdadeiras tarefas do executivo. Foi esse reconhecimento que preparou, depois da Segunda Guerra Mundial, a emergência do gerenciamento como uma disciplina,

4 A frustração dos executivos com os dados que a tecnologia forneceu até hoje tem despertado a nova revolução da informação. Era necessário redefinir a informação e criar novos conceitos. De empreendimento em empreendimento, durante os últimos anos, os executivos começaram a se perguntar: "quais os conceitos de informação que precisamos para nossa tarefas?" E começaram a exigi-los de seus tradicionais provedores de informação, os funcionários de contabilidade. O primeiro dos novos conceitos de informação a tornar-se amplamente usado é a contabilidade da cadeia econômica.

A contabilidade tradicional, fiel às suas origens, como corporação, como uma entidade legal, fornece dados a respeito do que acontece financeiramente dentro de uma empresa. A outra provê custos ao longo de toda a cadeia econômica. Ela atua desde os fornecedores até o último cliente. A contabilidade da cadeia econômica foi inventada mais ou menos há 80 anos nos Estados Unidos por William C. Durant, que entre 1908 e 1920 (bem antes de Alfred Sloan) construiu a GM e merece ser chamado de o inventor da indústria automobilística. No começo dos anos 20, seu modelo de contabilidade foi copiado (e ligeiramente modificado) pela Sears e, 10 anos depois - novamente numa forma ligeiramente modificada -, por Marks & Spencer, na Inglaterra. A Toyota, por volta de 1950, copiou-a, praticamente sem alterações, das duas empresas mencionadas. E, 25 anos depois, o falecido Sam Walton repatriou esse modelo para os Estados Unidos. e fez dele o alicerce do sucesso do Wal-Mart.

Por volta de 1980, apareceu o que agora é conhecido como a contabilidade baseada na atividade. Ao contrário da contabilidade de custos tradicional, a baseada na atividade não foi projetada para minimizar custos. Foi projetada para maximizar rendimentos. Seu enfoque está na criação de valores, em vez de evitar desperdícios.

É possível discernir e definir a próxima e talvez até mais importante tarefa, desenvolvendo um sistema de informações efetivo para os executivos: a coleta, organização e informação com enfoque nos fatores externos. Todos os dados que até agora temos são de enfoque interior. Mas no que diz respeito ao "lado de fora" (clientes e, igualmente importantes, não clientes; competidores e, igualmente importantes, não competidores; mercados; tecnologias diferentes daquelas já instaladas na própria indústria; moedas correntes; economia; e assim por diante) não estão disponíveis.

Os executivos são providos, de forma precária, de informações externas, como foi mostrado no recente colapso das economias asiáticas. Esse colapso era previsível - pelo menos um ano antes de acontecer. As únicas perguntas eram: o que o acionaria e onde começaria. Mas ele foi claramente predito nas estatísticas públicas, pelo tamanho e composição dos débitos dos vários países e de seus balanços de pagamentos. Mesmo assim, a maioria das grandes empresas, tanto americanas quanto japonesas, ficou totalmente surpresa e despreparada. Todas as suas informações eram internas, apesar de possuírem apoios consideráveis nesses países.

A informação aos executivos que a nova revolução começa a prover tomará os dados externos mais importantes e mais urgentes. Todos os conceitos de informação fornecem somente informações internas. Pode ser discutível que o computador e o fluxo de dados tenham trazido mais danos do que benefícios ao gerenciamento empresarial. Eles têm agravado o que, em geral, tem sido uma tendência degenerativa do gerenciamento, especialmente nas grandes corporações: focalizar os custos e esforços internos em vez de estar atento às oportunidades, mudanças e ameaças externas. Essa tendência está se tornando altamente perigosa, considerando-se a globalização da economia, as mudanças rápidas nos mercados e no comportamento do consumidor, o vai-e-vem das tecnologias por intermédio das tradicionais linhas industriais e a instabilidade crescente das moedas.

5 A atual revolução da informação é a quarta revolução da informação na história da humanidade. A primeira foi a invenção da escrita há 5 000 anos na Mesopotâmia, milhares de anos mais tarde na China e depois pelos maias na América Central. A segunda revolução da informação aconteceu com a invenção do livro escrito, primeiro na China e depois na Grécia. A terceira revolução da informação teve início com a invenção da prensa de Gutenberg e dos tipos móveis, entre 1450 e 1455, e também pela invenção contemporânea da gravura. Há alguma coisa que possamos aprender hoje com o que aconteceu há 500 anos?

A primeira coisa a aprender é termos um pouco de humildade. Todo mundo hoje em dia acredita que a presente revolução da informação é improcedente, seja por sua capacidade de reduzir custos ou pela velocidade e intensidade com que ocorre. Essas crenças são simplesmente absurdas: na época em que Gutenberg inventou a prensa havia uma indústria de informação substancial na Europa. Ela foi provavelmente a maior empregadora da época. Consistia amplamente de milhares de monastérios, muito dos quais abrigavam centenas de monges altamente competentes. Cada monge trabalhava desde o alvorecer até o pôr-do-sol, seis dias por semana, copiando livros à mão. Um monge bem treinado e dedicado podia fazer quatro páginas por dia ou 25 páginas durante uma semana de seis dias. Produziria anualmente entre 1200 e 1300 páginas escritas à mão.

Cinqüenta anos mais tarde, por volta de 1500, os monges tinham ficado desempregados. Esses monges foram substituídos por um número pequeno de simples artesãos. A recente classe de "tipógrafos", totalizando talvez 1000 indivíduos, espalhou-se pela Europa.

As reduções de custos e preços da terceira revolução da informação eram tão grandes quanto as da presente - a quarta revolução da informação. E assim foram a velocidade e a extensão em que ela se espalhou. Tão importante quanto a redução em custos e a velocidade de distribuição da nova tecnologia de impressão foi seu impacto no que a informação pudesse significar. Os primeiros livros impressos eram escritos em latim e ainda tinham os mesmos tópicos que os monges haviam escrito anteriormente à mão: tratados religiosos e filosóficos. Mas, apenas 20 anos após a invenção de Gutenberg, livros de autores contemporâneos começaram a emergir, apesar de ainda aparecerem em latim. Mais 10 anos e os livros eram impressos não somente em grego e hebraico, mas também, numa quantidade crescente, primeiro em inglês, depois nas outras línguas européias. Em pouco tempo, a revolução da imprensa também mudou as instituições incluindo o sistema educacional. Nas décadas que se seguiram, universidade após universidade foram sendo fundadas na Europa. Mas, diferentemente das primeiras, elas não foram desenvolvidas para o clero ou para o estudo da Teologia. Elas foram construídas para os leigos: Direito, Medicina, Matemática, Filosofia Natural (Ciência).

Teria havido uma era de descobertas, começando na segunda metade do século XI, sem os tipos móveis? A imprensa tomou público cada simples avanço que os navegadores portugueses fizeram ao longo da costa ocidental da África em suas buscas por uma rota marítima para as Índias. A imprensa proveu a Colombo os primeiros (apesar de totalmente errados) mapas das terras fabulosas.

EPÍLOGO A lição mais importante da revolução da informação anterior pode, no entanto, ser encontrada nos destinos e fortunas de seus especialistas. A revolução da imprensa imediatamente criou uma nova e improcedente classe de técnicos da informação, exatamente como a recente revolução da informação tem criado inúmeros técnicos em equipamentos e programas de computador. Os especialistas da revolução da imprensa foram os primeiros tipógrafos, não existentes e de fato nem mesmo imagináveis - em 1455. Eles floresceram na Europa 25 anos mais tarde e se tornaram grandes estrelas. Esses virtuosos da imprensa eram conhecidos e reverenciados por toda a Europa exatamente como os nomes das empresas de computadores e de software são reconhecidos e admirados no mundo todo hoje em dia.

Por volta de 1580, os tipógrafos tinham se tornado artesãos comuns, negociantes respeitáveis, mas não mais membros das classes superiores. Seu lugar foi logo tomado pelos que agora chamamos editores. Essa mudança ocorreu no momento em que a nova tecnologia começou a ter um impacto no significado da informação e, com ele, no significado e na função das instituições do século XV, tais como a Igreja e as universidades. A conjuntura, portanto, era a mesma na qual se passa a atual revolução da informação. Passamos pela mudança na informação dos negócios e, com ela, a redefinição de sua função e de seu propósito.