A
globalização não precisa ser cruel
por Jeffrey E. Garten Gazeta Mercantil
11/02/98
No crepúsculo do século 20, tornar mais humana a globalização está rapidamente se
transformando na questão dominante de nosso tempo. De Boston a Bangcoc, o comércio, os
investimentos e a tecnologia de informação estão crescendo intensamente entre
fronteiras e afetando profundamente a capacidade dos governos de prover redes de
segurança social e serviços públicos para amortecer seu impacto sobre a população.
Uma reação hostil em termos políticos está tomando corpo na Ásia, Europa e América
Latina. Poderá também ocorrer nos Estados Unidos, quando a atual expansão econômica
chegar a seu final inevitável. Embora as empresas internacionais não possam assumir toda
a responsabilidade, nenhum desafio é mais importante para a administração global do que
encontrar um equilíbrio entre a pressão implacável por lucros de curto prazo e
responsabilidades sociais mais amplas.
O que cabe a um diretor executivo fazer? Até que ponto deveriam as empresas assumir as
responsabilidades que até hoje foram assumidas pelos governos? Em que medida isso é
possível? John Browne, diretor executivo da British Petroleum Co., tem uma estratégia e
uma filosofia claras. Browne acredita que para a BP prosperar é preciso que as
comunidades em que realiza os négocios também prosperem. Browne insistiu para que a
saúde econômica e social das cidades em que a BP mantém seus negócios sejam um ponto
de grande atenção por parte do conselho diretor da empresa. Também fez dos
investimentos sociais de longo prazo uma variável importante na remuneração dos
empregados da BP no mundo todo.
O que fazer - e como - é deixado por conta das unidades locais da BP. Mas uma avaliação
regular de suas atividades é feita por executivos regionais. Em áreas como treinamento
de mão-de-obra para empregados locais e construção de escolas, ambiciosas metas são
estabelecidas e o desempenho é medido em relação a elas. Envolvidos no processo,
juntamente com os empregados e o conselho diretor da BP, estão os residentes locais cujos
pontos de vista são freqüentemente pesquisados.
Os investimentos comunitários da BP são amplos. No Vietnã, a empresa está provendo
tecnologia baseada em computador para controlar os estragos causados pelas enchentes
recorrentes. Na Turquia, a BP recentemente financiou o replantio de uma floresta
destruída pelo fogo à beira do Mar Negro. Na Zâmbia, a empresa ofereceu 200
refrigeradores que funcionam com energia solar para ajudar os médicos a estocar vacinas
contra a malária. Na África do Sul, ajudou financeiramente o desenvolvimento de pequenos
negócios em áreas urbanas como Soweto. Na Colômbia, está transformando seu próprio
lixo em tijolo para construções residenciais locais.
Além disso, acidentes de trabalho, emissões nocivas e vazamentos de petróleo são
sujeitos a monitoramento e quantificação. A Ernst & Young examina os livros da
empresa. A pressão é permanente para que não haja acidentes.
Até agora, a estratégia não prejudicou os seus lucros. Ao contrário. "Estes
esforços nada têm a ver com caridade", afirma Browne," e têm tudo a ver com
nossos interesses de longo prazo. Não vejo contradição entre o curto e o longo prazo.
Vinte anos nada mais são do que oitenta trimestres. E nossos acionistas querem desempenho
hoje, amanhã e depois de amanhã".
Até o momento, estão obtendo o que desejam. A partir do final de 1992, se um investidor
comprou ações da BP e reinvestiu os dividendos, deve ter obtido cerca de 33% de retorno
anual, superando em 50% os retornos indicados pelo índice Dow Jones, pelo índice das
500-ações da Standard & Poor e outros. Nos últimos cinco anos, a capitalização de
mercado da empresa expandiu-se quase quatro vezes, para US$ 77 bilhões. Ao mesmo tempo,
os lucros aumentaram quase cinco vezes, para US$ 4,7 bilhões. No ano passado, o retorno
da BP sobre o capital investido excedeu o de todas as principais empresas energéticas.
Apesar do sucesso de Browne em aliar as necessidades imediatas de seus acionistas às
responsabilidades sociais mais amplas, ele mantém a cautela: "Temos de estar
extremamente conscientes de nossas limitações. Empresas não podem substituir
governos". É verdade. Anda que os governos encolham, eles terão de se tornar mais
eficazes no tratamento dado a todas as áreas, dos mercados financeiros à seguridade
social. Mas as empresas internacionais têm um grande interesse na estabilidade social e
no progresso econômico, e à medida que o governo recue, terão que preencher grande
parte da lacuna.
As empresas deveriam seguir o exemplo de Browne: pensar a longo prazo, investir
pesadamente nas comunidades em que têm negócios, serem obsessivas na obtenção de
lucros e assumir integralmente a responsabilidade social de suas políticas
administrativas e de remuneração. A grande questão é se Browne é parte da vanguarda
de uma nova geração de líderes empresariais, ou simplesmente uma exceção admirável.
A resposta poderia ajudar a determinar a magnitude da reação contra a globalização.
Artigo publicado originalmente na Business Week
|
Reitor da Escola de
Administração de Yale. Ex-banqueiro de investimentos, foi subsecretário para questões
de Comércio Internacional no primeiro governo Clinton. |
