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Será que eu tenho de saber

Física Quântica?


por David Cohen
Exame

4 de novembro de 1998

 

Bem, não exatamente. Mas as novas ciências do século XX podem sim ajudar a entender melhor a sua empresa

UM JOVEM RELIGIOSO JUDEU foi certa vez a um seminário de um rabino muito respeitado. Ao voltar à sua cidade, entusiasmado, reuniu os amigos para contar o que ouvira. A primeira palestra do rabino, disse, foi excelente: ele entendeu tudo! A segunda palestra foi ainda melhor - mais sutil, mais profunda. Ele não entendeu os ensinamentos, mas sentiu que o rabino sabia tudo. A terceira palestra foi a melhor de todas, afirmou o estudante. Tão boa que nem o próprio rabino a entendeu.

Essa história costumava ser contada pelo dinamarquês Niels Bohr, um dos fundadores da física quântica. Ele dizia sentir-se como aquele rabino. Bohr e seus colegas haviam descrito uma nova ciência tão sutil, tão profunda e tão nova em seus conceitos e linguagem que eles mesmos não entendiam o que tinham feito.

Se gente como Niels Bohr e Albert Einstein não conseguia entender direito as implicações da teoria quântica, como se explica que uma horda de consultores, teóricos da administração, escritores e afins venha aplicando, de 15 anos para cá, não só a teoria quântica mas também os estudos da complexidade e do caos, a ciência computacional e os avanços na biologia, para tecer novas e às vezes mirabolantes teses sobre como gerenciar as empresas? Eis aí uma questão difícil de responder. Mas, antes de descartarmos todas as novas teorias como pura baboseira, convém lembrar que, mesmo sem ser compreendida a fundo, a teoria quântica tem resultados práticos inegáveis, da bomba atômica à cirurgia a laser.

Por mais estranhas que sejam suas noções, muitas vezes contrárias à intuição, a física quântica é uma ciência, com todo o rigor que a palavra envolve. A própria física newtoniana, hoje chamada de clássica, já foi um dia contra-intuitiva: no século XVII, gênios do porte de Renê Descartes não queriam aceitar que uma força pudesse agir sobre um corpo a distância (como prega a lei da gravidade).

Estamos então diante de uma nova verdade da administração? Calma lá. Mesmo considerando que as verdades da administração duram só até os primeiros fracassos gerados por elas, não vamos nos apressar. O físico belga David Ruelle, um dos criadores da teoria do caos, adverte em seu livro Acaso e Caos (editora Unesp) sobre a dificuldade de transplantar as conclusões da teoria para as ciências humanas. Basicamente, diz ele, pela falta de equações que se apliquem a sistemas humanos, pela imprecisão de sua descrição ao longo do tempo e pelo caráter mutável dos sistemas.

Mesmo assim,"o progresso é possível", afirma Ruelle. Afinal, dizia-se também que a meteorologia não se prestaria jamais à previsibilidade, e "esse campo hoje faz parte da ciência quantitativa". Utilizando a teoria da complexidade, já vêm sendo desenvolvidas experiências para prever o comportamento de bolsas de valores ou até mesmo de clientes que fazem compras em grandes magazines. Na vanguarda dessas experiências está o Instituto Santa Fé, no Novo México, um centro de estudos científicos de ponta nos Estados Unidos.

Aplicações diretas das novas ciências nas áreas humanas, porém, são um campo que ainda está engatinhando. Então será que adianta tocar nesse assunto? Sim, adianta. E muito, diz a física e filósofa da ciência Danah Zohar, formada do Massachusetts Institute of Technology (MIT), pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e pela Hebrew University, em Israel. Danah, que hoje mora na Inglaterra e dá aulas de liderança na universidade de Oxford, esteve no Brasil em setembro num seminário organizado pela consultoria Pizarro e Associados. "Todo esse conjunto de ciências do século XX traz novos paradigrnas, muda os conceitos fundamentais a partir dos quais compreendemos o mundo. Com eles, podemos ver coisas que não percebíamos antes", disse. Em seu mais recente livro, Rewiring the Corporate Brain (Reconectando o Cérebro Corporativo, da editora Koehler), Danah dá o exemplo de um peixe, para quem todo o universo era a água em que nadava. Um belo dia, ele salta acima da superfície e consegue perceber o contexto maior, que inclui o rio, o céu, as árvores.

Por que mudar os paradigmas? Por uma razão muito simples: aumentar sua capacidade de raciocínio, adaptar-se a novas realidades. São as conexões entre neurônios no cérebro que determinam a nossa capacidade mental. Nossas experiências determinam o tipo de conexões que faremos, o modo como vamos estruturar as relações entre os neurônios.

Até pouco tempo atrás, acreditava-se que esse processo se completava quando o indivíduo tinha por volta de 18 anos. A partir daí, a capacidade cerebral só tinha um caminho - ladeira abaixo. "Hoje, os neurocientistas sabem que pessoas de mais de 90 anos ainda têm condições de mudar as conexões em seus cérebros", afirma Danah. Novas conexões, relacionadas a novos paradigmas, levam a novas maneiras de ver o mundo. Se você é um pescador de ltaúnas, no Espírito Santo, pode manter a mesma estrutura de pensamento que tinha aos 18 anos, porque o ambiente à sua volta não mudou muito. Se vive numa cidade grande, se trabalha numa empresa às voltas com situações instáveis e progressos há pouco tempo inimagináveis, não pode se dar o luxo de não mudar as conexões do seu cérebro.

Para frisar bem seus argumentos, Danah, sempre vestida numa daquelas batas orientais, mostra uma bolota cheia de espinhos, representando as conexões do cérebro. Reconectar o cérebro é como - zás! nesse momento ela abre a bolota, que fica parecendo uma enorme mandala.

A física clássica, diz Danah, nos deu uma série de paradigmas para entender a realidade. "Nós vivemos num mundo de organizações newtonianas, que raciocinam com a certeza e a previsibilidade. Elas são hierárquicas: o poder emana do topo e o controle é vital em todos os níveis. Elas frisam um único ponto de vista, a melhor maneira de ir para a frente. Elas são organizadas e gerenciadas como se a soma de suas partes explicasse o todo." O que Danah propõe é um novo modelo, baseado nas idéias, na linguagem e nas imagens das novas ciências - a física quântica, as teorias do caos e da complexidade, as últimas descobertas sobre o funcionamento do cérebro. Danah começou a falar para empresas depois do sucesso de seu primeiro livro, O Ser Quântico (no Brasil, editado pela Best Seller). Por causa do livro, foi chamada para palestras em cursos de MBA e empresas como a Shell, Philips e Skandia. Entre as companhias que começaram a adotar os princípios de Danah estão a montadora Volvo e a cadeia de lojas britânica Marks & Spencer.

Quais são, afinal, as diferenças de paradigma trazidas pelas novas ciências? Danah enumera oito:

1) Holismo, não atomismo

2) lndeterminismo

3)Auto-organizacao

4) Ambos, nao um ou outro

5) O mundo e incerto

6) Potencial, não real

7) Universo participativo

8) O vácuo

Como fazer para aplicar esses novos paradigmas? Danah dá uma receita simples: diálogo. Sua técnica de diálogo tem seis pontos:
Descobrir, no lugar de saber. É investigar junto com o outro, em vez de bater-se pela sua certeza.
Perguntas, não respostas. Não é ensinar, é explorar possibilidades novas.
Partilhar, não ganhar. Não há ponto de vista melhor, há propostas.
Igual, não superior. Todas as posições são válidas, devemos aprender com todos.
Reverência, não poder. Não há imposição de idéias, há gratidão pela riqueza de cada experiência.
Escutar. Dialogar é explorar novas possibilidades.

Sim, sim, tudo isso está no terreno das metáforas. A vantagem das metáforas é ajudar a compreender situações complicadas, atuar de acordo com uma nova perspectiva. Uma empresa que adota a metáfora de uma corrida funciona de forma muito diferente de outra que adota a metáfora da sobrevivência. Pelo menos é o que se espera. Não é à toa que o megainvestidor George Soros batizou seu principal fundo de capitais como Fundo Quântico - aquele que pretende prosperar num ambiente de incertezas.

O problema das metáforas é quando se vai longe demais, esquecendo o termo "é como se" e adotando a imagem como a própria realidade, diz Michael Lissack, do Henley Management College (Inglaterra), num artigo sobre as relações entre a ciência e o mundo empresarial. O líder quântico, diz Danah, é alguém sábio o suficiente para manter-se no limite, saber quando usar a teoria clássica e quando usar os novos paradigmas.

Já que iniciamos esta reportagem com uma história de rabino, encerremos com uma de um mulá da tradição sufi (uma escola mística muçulmana), também citada no livro de Danah Zohar. Certo dia, dois homens pedem ao mulá Nasruddin que resolva o conflito entre eles. O primeiro homem conta o caso, e Nasruddin afirma: "Percebo que você tem razão. " O segundo homem dá a sua versão dos fatos, oposta, e Nasruddin responde: "Percebo que você tem razão." Ouvindo isso, um terceiro homem, que observava a cena, pergunta como os dois homens podiam ter razão, se discordavam tão radicalmente. A esse homem, Nasruddin diz: "Percebo que você também tem razão."

a Controle x Caos
Para quem você torce?

NA DÉCADA DE 60, O HUMORISTA AMERICANO MEL Brooks criou o personagem Maxwell Smart, o agente 86, aquele herói atabalhoado que pertencia à agência Controle e cujo único trabalho era combater a criminosa Caos. Pois bem, três décadas depois alguns cientistas e consultores andam afirmando que talvez nós devêssemos torcer para o pessoal da Caos. Sua principal ferramenta retórica é... sim, você adivinhou, a teoria do caos.
 
Um dos maiores inimigos do Controle é o cientista Stuart Kauffman, do Instituto Santa Fé. Suas razões: em primeiro lugar, a teoria quântica nos diz ser impossível prever fenômenos moleculares. Ainda que eles fossem previsíveis, a teoria do caos mostra que uma pequena perturbação nas condições iniciais de um sistema complexo pode causar mudanças profundas. Ou seja, não dá para acertar nas previsões de longo prazo. Finalmente, a teoria computacional diz que sistemas não equilibrados podem ser pensados como máquinas realizando algoritmos (passos para chegar à solução de um problema) - e um teorema demonstra que, na maioria dos casos, não há descrição mais curta de um algoritmo do que ele próprio. Quer dizer, quase sempre a única maneira de prever um resultado é vê-lo acontecer.

Ainda assim, Kauffman acredita em leis naturais. Seu argumento é que pouquíssimo podemos saber sobre as moléculas de um punhado de água congelada, mas podemos saber muito sobre o cubo de gelo que elas formam. Do mesmo modo, uma catarata é um sistema complexo não equilibrado, mas sua forma muda pouco. Quer dizer, sistemas caóticos podem formar padrões. Esses padrões são chamados "atratores estranhos", o limite dentro do qual ocorrem os fenômenos imprevisíveis. Uma das evidências mais caras aos defensores do caos é que esses padrões emergem, da complexidade, provando que o caos tende a se auto-organizar.

E o que isso tudo tem a ver com a sua empresa? E aí que entram os consultores. Como o australiano Brian Bacon, presidente da IPC Worldwide e vice-presidente da World Business Academy, uma rede sem fins lucrativos cujo objetivo é unir empresários com preocupações sociais. Na lista de seus clientes estão desde a Coca-Cola e o governo de Sydney (na Austrália) até a Motorola e a Organização Mundial do Trabalho. Bacon esteve no Brasil em agosto, para dar um seminário sobre liderança em tempos de crise e autogerenciamento (ele volta em novembro). EXAME ouviu-o sobre dois conceitos da teoria do caos:

As regras que emergem do caos
Uma empresa de energia tailandesa, com sérios problemas de produtividade, contratou consultores britânicos. Não deu muito certo. Os trabalhadores tinham medo de perder o emprego e não entendiam os novos conceitos. Os consultores achavam que os tailandeses eram preguiçosos e por isso não conseguiam implantar seu método. Até que começou uma época de tempestades. Foi o caos, com constantes quedas de energia pelo país. Na gestão da empresa, também houve o caos: o que Bacon observou foi os trabalhadores fazendo as funções uns dos outros, gritos para determinar quem faria o quê, horários desarrumados, discussões. Nessa época de crise, a produtividade da empresa subiu - as quedas de luz diminuíram, o tempo de socorro a emergências caiu, os custos foram menores. Com todos motivados por um ideal de prestar serviço, uma ordem surgiu do caos. Depois disso, a empresa iniciou um processo de reestruturação para funcionar de acordo com aqueles ideais também nas horas de calmaria. Deu certo? "Não existe história de Cinderela nesse tipo de negócio", diz Bacon. "0 que ficou claro foi a necessidade de reorganização, a partir do próprio pessoal da empresa. As melhoras são lentas."

O atrator estranho
"Para a maioria das empresas, os clientes são carteiras de dinheiro com braços e pernas", diz Bacon. "Elas tentam arranjar modos de atuar para extrair do ambiente o que almejam." O problema é que o ambiente é um sistema complexo, o que torna praticamente impossível saber o efeito de uma ação. Qual a solução? Apelar para o atrator estranho, que Bacon identifica como um valor mais alto da companhia. Esse padrão acaba organizando o caos, o que no final das contas traz mais resultado do que agir diretamente sobre o caos. "Em vez de conectar-se com a vida tentando tirar dela o que surprê quer, conecte-se com os seus princípios", diz Bacon. Um exemplo que ele cita é da empresa química indiana Nagarjuna. Quando o Vietnã anunciou uma concorrência internacional para instalar uma fábrica de refinamento de açúcar, a Nagarjuna competiu com empresas gigantes da Europa. Na hora de apresentar o projeto, fez o que sempre costuma fazer: enviou seus técnicos à região, estudou os hábitos locais e, depois, incluiu no projeto um programa para melhorar as técnicas de plantio de cana dos moradores (2 500 famílias) com material fornecido pela empresa. Também sugeriu melhorias no meio ambiente - tudo de acordo com a filosofia da empresa. Não só a Nagarjuna ganhou a concorrência como é hoje uma das poucas companhias com 100% de capital estrangeiro no Vietnã.

 

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Dois estilos de Gestão
O ideal e oscilar entre eles
Newtoniano   Quântico
Certeza   Incerteza
Previsibilidade   Mudanças rápidas
Hierarquia   Redes não-hierárquicas
Divisão de trabalho e fragmentação de funções   Esforço integrado (holistico)
O poder vem do centro ou do topo   O poder vem de vários centros
Empregados passivos   Empregados sócios
Uma maneira correta   Vários pontos de vista
Competição   Cooperação
Controle burocrático   Estruturas flexíveis
Eficiência   Relacionamento
Operação de cima para baixo (reativa)   Operação de baixo para cima (experimental)
Fonte: Rewiring the Corporate Brain, de Danah Zohar