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QUANDO A KIBON FOI VENDIDA POR 930
milhões de dólares à vista em outubro de 1997 muitos
executivos brasileiros demonstraram um certo ceticismo
quanto ao valor da aquisição. Afinal, soava exagerado
que tamanha fortuna tivesse sido investida na compra de
uma empresa cujas vendas atingiram 332 milhões de
dólares em 1996 com um lucro líquido de 75 milhões de
dólares. A questão é: a Unilever não pagou 930
milhões de dólares por uma fábrica de sorvetes, mas
sim pela posição comercial das marcas da Kibon.
Trata-se de uma sutileza conceitual das mais importantes
- remunerada, no caso, em algumas centenas de milhões de
dólares.
Com valores proporcionalmente relativos, o exemplo pode
ser aplicado à quase totalidade das operações recentes
de fusões e aquisições que começaram a agitar o país
de três anos para cá. Amo, Prosdócimo, Ceval, Bombril,
Pullman, Lacta, Metal Leve, Cofap, Vera Cruz foram
também adquiridas - mas em nenhum desses casos a
questão do valor monetário da marca ficou tão
evidenciada como no da Kibon.
O que levou a Unilever a pagar tanto pelas marcas da
Kibon? Para entender adequadamente essa questão é
preciso reconsiderar tudo o que aprendemos até agora
sobre os elementos que, compõem o valor de uma empresa.
É uma tarefa desafiadora. Habituamo-nos conviver com
parâmetros físicos (materiais) para alimentar a idéia
de que uma empresa (de produtos ou de serviços), vale
aquilo que os nossos olhos conseguem enxergar. Imensos
terrenos, caminhões, galpões, máquinas, estoques ou
escritórios. Quanto maior ou mais bela, mais rica nos
parecia. Essa noção pode não ter mudado para a maioria
dos executivos. Tampouco se trata de discutir se as
dimensões físicas são ou não fundamentais para medir
o valor das empresas. Mas observe um ícone global como a
Nike. A empresa nada possui que corresponda às
dimensões da sua liderança no segmento de material
esportivo. A imensa maioria de seus ativos é de
intangíveis. Aos consumidores da marca Nike pouco
importa saber como e onde são produzidos os tênis que
compram. São atraídos pelos valores que a marca Nike
traduz. Trata-se de um modelo até certo ponto singelo:
criar uma empresa virtual. Com ele você não precisa
capitanear urn parque industrial. Basta contratar a
produção onde os custos sejam mais baixos e a
mão-de-obra mais eficiente. Não é necessário investir
tempo e trabalho na paranóía de focar padrões de
qualidade que há muito deixaram de ser o principal fator
diferencial de competitividade.
O fabricante deve produzir as encomendas de acordo com os
padrões que você e sua empresa estabelecerxn. Ele vive
disso. Se não o fizer a um custo competitivo, rua com
ele. Nem mesmo a armazenagem, distribuição e
assistência técnica necessitam ocupar o seu tempo. Há
empresas especializadas nessas funções que operam com
elevados níveis de eficiência. Thomas Stewart, editor
da Fonune e autor de O Capital Intelectual, lembra
que, além da Nike, muitas corporações gigantescas
praticamente não possuem ativos tangíveis. É o caso da
Visa. Movimentando acima de 300 bilhões de dólares por
ano, os ativos materiais da Visa limitam-se a mesas,
cadeiras e computadores, uma vez que as linhas
telefônicas e os espaços físicos são propriedades que
podem muito bem ser alugadas. Para muitas empresas, o
ativo intangível serve hoje de lastro para a captação
de capital e novos investimentos. Alguns exemplos:
- A Carnation, uma subsidiária da Nestlé,
conseguiu captar recursos no mercado americano
oferecendo suas marcas como garantia.
- Uma rede americana de hotéis vendeu e em seguida
alugou sua marca de um banco por 100 milhões de
dólares por um período de 15 anos. Ao final do
contrato, a marca será recomprada pelo valor
simbólico de 1 dólar.
- A Du Pont avalia suas marcas para decidir sobre
investimentos em comunicação e para estabelecer
com precisão o valor adequado das taxas de
licenciamento.
É evidente que quando se pensa em produtos de massa como
os tênis da Nike ou as curvas da garrafa de CocaCola
(uma empresa que também licencia a produção e a
distribuição) fica clara a importância da marca.
Ocorre que esse ativo intangível passou a ser valorizado
também em setores com pouco ou nenhum apelo para o
consumidor final. Veja o que constatou uma pesquisa feita
pela economista americana Margaret Blair, da Brookings
Institution. Em 1982, o património físico de
indústrias e mineradoras correspondiam a 62% de seu
valor de mercado. Dez anos depois, apenas 38%.
É lógico pensar que a Unilever comprou as marcas da
Kibon para continuar a produzir e distribuir o padrão de
sorvetes que elas carregam. Nesse caso, a compra incluiu
as fábricas, máquinas e equipamentos. Há outros casos
em que o valor não está vinculado a um parque
industrial. Marcas de times de futebol brasileiros, por
exemplo, são hoje alvos prioritários de bancos
internacionais. O que elas produzem? Bem, tudo ou nada
além da cíclica habilidade futebolística. Seu valor em
dinheiro é materializado em contratos de patrocínio ou
de licenciamento. Seria o futebol um caso isolado?
Considere então a Hering, que está deixando de ser uma
indústria têxtil tradicional para se tornar uma
licenciadora de suas marcas.
Com tudo isso, os profissionais das áreas de finanças e
marketing e mesmo empresários às vésperas de vender ou
comprar uma empresa continuam a ignorar a importância
financeira da marca. Tudo deriva da falta de critérios
universais para empreender a tarefa. Por que o capital
está mais voltado para ativos físicos que intangíveis?
"Porque os seus retornos são mais difíceis de
serem medidos", afirma o professor de Harvard
Michael Porter.
Como avaliar, então, uma marca?
Entenda primeiro que se trata uma tarefa mais complexa
que a avaliação tradicional de uma empresa. Uma coisa
é aferir quanto valem máquinas, terrenos e estoques.
São bens palpáveis, commodities que podem ter seu
valores cotejados no mercado. Basta comparar preços e
estimar a depreciação. Outra, bem diferente, é estimar
o preço de algo único e intagível, que não se pode
tocar. O poder de uma marca é reconhecido pelos reflexos
de sua imagem. São as percepções de qualidade, status,
conforto, beleza etc.
MOEDA CORRENTE - Nesta era de economia simbólica,
em que as marcas tendern a ser tão ou mais relevantes
que os ativos tangíveis, traduzir seu valor em cifras
tomou-se fundamental no mundo dos negócios. Essa
preocupação deixou de ser apenas acadêmica em meados
da década passada. Foi quando uma onda de fusões e
aquisições passou a agitar o mundo dos negócios nos
Estados Unidos e na Europa. E as marcas se tomaram moeda
corrente nessas negociações. Veja o caso da Philip
Morris. Em 1985, ao incorporar aos seus domínios a
indústria de alimentos Kraft, a Philip Morris
desembolsou um montante dez vezes superior ao 1 bilhão
de dólares que valia o patrimônio físico da companhia
à época. Os 9 bilhões adicionais pagaram as marcas
Kraft de queijos e sorvetes, entre outros produtos.
De lá para cá surgiram diferentes metodologias
internacionais que se propõem a avaliar marcas. A
proposta mais conhecida - e igualmente discutida - é a
da consultoria britânica lnterbrand. Seu método
consiste em pontuar sete aspectos da marca. Desses,
liderança e grau de intemacionalização são fatores
que pesam mais que outros. Liderança é a capacidade que
uma marca tem de influenciar o seu mercado, estabelecer
preços, comandar a distribuição e dificultar a entrada
de novos concorrentes. No Brasil, marcas dominantes como
o sabão em pó Omo e os sorvetes Kibon praticamente
determinam as ações e reações da concorrência nos
seus respectivos segmentos.
Quanto maior o grau de internacionalização que uma
marca confere, maiores serão suas vantagens
competitivas. Possibilita, por exemplo, abrir novas
frentes de consumo quando o mercado de origem estiver
estagnado. As vendas do McDonald's se mantêm estáveis
no mercado americano? No Brasil e em outros países
emergentes elas não param de crescer. Corporações como
McDonald's, Disney e Sony foram alçadas à liderança
mundial graças ao poder de marcas que não se importam
com fronteiras. Pense, por exemplo, nos personagens
Disney e os bilhões de dólares recolhidos pela
companhia em contratos planetários de licenciamento e
merchandising.
LONGEVIDADE - O terceiro fator em
importância a ser considerado quando se avalia uma marca
diz respeíto à tradição. Quanto mais prolongada for a
existência da marca em seu setor de atuação, maiores
serão as chances de obter fidelidade e lembrança
espontânea dos consumidores.
Há quatro outros fatores que recebem menor peso nos
levantamentos da lnterbrand:
- Mercado: uma marca pode ser mais ou menos
valiosa dependendo do setor em que opere.
Alimentos e bebidas são tidos, por exemplo, como
mais prornissores do que vestuário. É fácíl
entender por quê: as empres desse setor estão
mais vulneráveis às oscilações da moda.
Lembra os tempos de ouro da grife Pierre Cardin?
Ela chegou a ser a marca líder em licenciamento
e merchandising. Hoje suas margens mal se
aproximam de uma Gap ou de uma Armani.
- Tendências: relaciona-se à capacidade da
marca em evoluir com o tempo sem perder sua
identidade. Quer exemplos? Ford e General Motors,
pioneiras do setor automobilístico, que souberam
combater a escalada de concorrentes japoneses no
mercado americano. Lançaram produtos inovadores,
sem jamais abrir mão dos valores que fizeram de
seus modelos referências para os consunúdores
americanos.
- Suporte: investimentos contínuos em
comunicação, pesquisa e desenvolvimento de
novos produtos facilitam o posicionamento de uma
marca no mercado. Hoje as relações entre marcas
e consumidores não terminaram no balcão. As
marcas mais valorizadas costumam ser aquelas que
se empenham no pós-venda por meio de serviços
de atendimento e de assistência técnica.
- Proteção legal: uma marca não existe
até que esteja legalmente protegida. Em 1973, o
McDonald's perdeu o direito de uso na África do
Sul. Um empresário de Pretória havia registrado
o nome. Resultado: a companhia norte-americana
teve de recomprar o próprio nome quando quis
entrar naquele mercado em 1995.
Dadas as notas para cada quesito, o passo seguinte da
avaliação consiste em apurar os resultados financeiros
gerados pela marca. Trata-se de fazer um levantamento dos
números relacionados às vendas atuais e futuras,
margens de lucro, investimentos em publicidade e
impostos, entre outros indicadores. Chega-se finalmente
ao valor da marca combinando, por meio de um modelo
matemático, os fatores mercadológicos e os financeiros.
Resultado do cruzamento das fronteiras do marketing e das
finanças, a avaliação de marcas situa-se num terreno
ainda propício a polêmicas. Nos últimos tempos, alguns
dos critérios utilizados pela lnterbrand vêm merecendo
reparos de especialistas. David Aaker, professor de
marketing da Universidade da California discorda por
exemplo, do sistema de notas. Considera essa arbitragem
excessivamente subjetiva.
Existe no mundo provavelmente uma única marca que paira
acima de qualquer controvérsia quanto aos critérios de
avaliação. É a Coca-Cola. A lnterbrand e a revista Financial
World a estimaram em 48 bilhões de dólares. Vale
isso mesmo? "Nós realmente não sabemos quanto ela
vale", disseram executivos da Coca-Cola no
relatório da diretoria de 1995. "0 que nós sabemos
é isto: se nossa companhia queimar até o chão não
teremos problemas em emprestar dinheiro dos bancos e
reconstruí-la com base apenas na força de nossa
marca."
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