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[04/06/2007]

Empresa e colaboradores – Valores em comum
Patrícia Bispo

Não é de hoje que estudiosos analisam o comportamento individual do ser humano como também o meio que o cerca e interage com ele. Observou-se e foi comprovado que, por ser tratar de um ser social, o homem dita regras para viver com seus semelhantes e isso gera valores que interferem diretamente no procedimento que cada um adota em relação a uma determinada situação.

Contudo, a preocupação com o comportamento humano não fica restrita apenas a quem dedica anos de sua vida às pesquisas. Nas empresas, por exemplo, nota-se uma forte tendência em lidar com a conduta dos profissionais e é justamente nesse momento que os valores corporativos aparecem como fator determinante no que deve ou não acontecer na rotina organizacional. Mas, por que será que os valores começam a serem foco das gestões?

Para Letícia Ouro, mestre em Filosofia e especialista em Gestão Organizacional, a crise dos valores de uma empresa segue o conflito que surgiu dos valores característico da era contemporânea. Desde que Nietzsche afirmou, com sua frase simbólica, “Deus morreu”, a decadência de valores e condutas universalmente válidos, atestados pela igreja - que representava o divino na terra, entraram em crise. O que tinha ou não valor, o que era certo ou errado fazer, passou a ser relativo. No vocabulário filosófico, isso se chama de “perspectivismo”, ou seja, algo é bom ou ruim, tem valor ou não, de acordo com certa perspectiva. Sendo assim, a contemporânea preocupação com os valores organizacionais deve-se à necessidade da busca e da delimitação da perspectiva da empresa.

“Um valor é algo que é bom. Só damos valor a algo quando julgamos que esse algo é bom. A primeira pergunta que se deve fazer quando se tem em vista a questão dos valores organizacionais é quem ou o que determinará o que é bom ou ruim para a empresa em questão”, afirma Letícia Ouro. Segundo ela, os valores de uma organização variam. O que vai determinar o que é ou não um valor para uma empresa é o fim a que ela se pretende, isto é, aquilo que companhia pretende realizar e que está vinculado à determinação de a quem ela pretende atender, ser boa. Como exemplo, ela cita, o caso de uma empresa onde a maneira de trabalhar possa ser decidida pela totalidade dos colaboradores, orientando, por meio de reuniões, como deve ser o dia-a-dia empresarial de uma dada área, principalmente ouvindo opiniões daqueles que trabalham e conhecem o meio corporativo.

Vale ressaltar que, atualmente, é observada uma grande confusão no que se refere aos valores organizacionais, pois parece que as empresas tomaram para si “valores universais” e os adotaram como seus códigos de ética e trabalho. A consultora destaca que as empresas têm adotado valores como “respeito”, “profissionalismo”, “compromisso com resultados”, passando por “trabalho em equipe”. Contudo, isso tem acontecido sem uma compreensão da forma e do motivo que levam esses valores a serem interessantes para a própria empresa. Não se tem definido, por exemplo, os valores organizacionais como aquilo que realmente tem significado efetivo para a realização da proposta empresarial, para os objetivos próprios, particulares, específicos de cada companhia. É como se quaisquer valores servissem para qualquer empresa, independentemente da natureza do seu negócio.

Quando questionada sobre quem deve “escolher” dos valores corporativos, Letícia Ouro defende que é possível determinar os valores de uma empresa pela natureza de seu negócio, a análise de suas ações e sua maneira de trabalhar. “Nossos valores, e o mesmo vale para os valores das empresas, refletem-se em nossas ações. Só fazemos aquilo que julgamos ou acreditamos ser bom”, exemplifica, ao acrescentar que os valores de uma empresa podem ser determinados pela observação de suas ações. Se o que se deseja é a mudança dessas, é preciso antes a determinação do que a empresa quer alcançar, qual seu fim. Vale destacar que a participação da área de Recursos Humanos é muito importante pela própria natureza de suas funções, diretamente vinculadas às pessoas. Em outras palavras, os valores de uma organização refletem os valores daqueles que nela trabalham. Sendo assim, os profissionais que tratam dos profissionais que trabalham numa empresa, lidam diretamente dos valores empresariais.

Participação os colaboradores – Se determinar valores organizacionais não é um processo simples, os colaboradores devem fazer parte dessa escolha? “Costumamos dizer que podemos sentar pra conversar, pensar melhor e decidir quais serão os valores adotados numa empresa”, menciona a consultora. Para ela, todos aqueles que trabalham na empresa possuem informações e pontos de vista importantes na determinação do que é preciso para que se alcance uma meta empresarial. Pois, apesar de se utilizar atualmente o termo “colaboradores”, aqueles que trabalham numa empresa não simplesmente colaboram para que o serviço seja feito, ao contrário.

O trabalho dessas pessoas é essencial para a existência da empresa. Os trabalhadores não são auxiliares, mas a mão-de-obra indispensável, sem a qual o serviço não pode ser feito. Sendo assim, todos compreendem o dia-a-dia de trabalho como ninguém. Somente os funcionários podem determinar aquilo que é necessário, e aquilo que pode ajudar, para que se trabalhe com mais excelência e eficiência, no que diz respeito ao âmbito específico das atividades que eles realizam, ao meio em que vivem e onde convivem diariamente.

Outro fato relevante, apontado por Letícia Ouro, é que os valores de uma organização são compartilhados por todos aqueles que nela trabalham. Como uma organização é um grupo de pessoas que se une com um fim ou intuito em comum, todos aqueles envolvidos no processo devem compartilhar na competência e na concordância quanto o que se deve fazer, e de que forma. “Se aqueles que atuam numa empresa chegam à conclusão que o dia-a-dia de trabalho rende mais quando é possível ouvir música, trabalhar com prazer, esse será um valor empresarial. Mesmo que os líderes empresariais discordem da sugestão, o fato é que essa não é somente uma idéia, ou o ponto de vista dos trabalhadores, mas se trata de um fato. Sendo assim, repito que não há separação entre os valores de uma empresa e os valores de todos aqueles que nela trabalham”, conclui a consultora.

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Patrícia Bispo
Jornalista responsável pelo conteúdo da comunidade virtual RH.com.br.

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