Não é de hoje que
estudiosos analisam o comportamento individual do ser
humano como também o meio que o cerca e interage com
ele. Observou-se e foi comprovado que, por ser tratar de
um ser social, o homem dita regras para viver com seus
semelhantes e isso gera valores que interferem
diretamente no procedimento que cada um adota em relação
a uma determinada situação.
Contudo, a preocupação com o comportamento humano não
fica restrita apenas a quem dedica anos de sua vida às
pesquisas. Nas empresas, por exemplo, nota-se uma forte
tendência em lidar com a conduta dos profissionais e é
justamente nesse momento que os valores corporativos
aparecem como fator determinante no que deve ou não
acontecer na rotina organizacional. Mas, por que será
que os valores começam a serem foco das gestões?
Para Letícia Ouro, mestre em Filosofia e especialista
em Gestão Organizacional, a crise dos valores de uma
empresa segue o conflito que surgiu dos valores
característico da era contemporânea. Desde que Nietzsche
afirmou, com sua frase simbólica, “Deus morreu”, a
decadência de valores e condutas universalmente válidos,
atestados pela igreja - que representava o divino na
terra, entraram em crise. O que tinha ou não valor, o
que era certo ou errado fazer, passou a ser relativo. No
vocabulário filosófico, isso se chama de
“perspectivismo”, ou seja, algo é bom ou ruim, tem valor
ou não, de acordo com certa perspectiva. Sendo assim, a
contemporânea preocupação com os valores organizacionais
deve-se à necessidade da busca e da delimitação da
perspectiva da empresa.
“Um valor é algo que é bom. Só damos valor a algo
quando julgamos que esse algo é bom. A primeira pergunta
que se deve fazer quando se tem em vista a questão dos
valores organizacionais é quem ou o que determinará o
que é bom ou ruim para a empresa em questão”, afirma
Letícia Ouro. Segundo ela, os valores de uma organização
variam. O que vai determinar o que é ou não um valor
para uma empresa é o fim a que ela se pretende, isto é,
aquilo que companhia pretende realizar e que está
vinculado à determinação de a quem ela pretende atender,
ser boa. Como exemplo, ela cita, o caso de uma empresa
onde a maneira de trabalhar possa ser decidida pela
totalidade dos colaboradores, orientando, por meio de
reuniões, como deve ser o dia-a-dia empresarial de uma
dada área, principalmente ouvindo opiniões daqueles que
trabalham e conhecem o meio corporativo.
Vale ressaltar que, atualmente, é observada uma
grande confusão no que se refere aos valores
organizacionais, pois parece que as empresas tomaram
para si “valores universais” e os adotaram como seus
códigos de ética e trabalho. A consultora destaca que as
empresas têm adotado valores como “respeito”,
“profissionalismo”, “compromisso com resultados”,
passando por “trabalho em equipe”. Contudo, isso tem
acontecido sem uma compreensão da forma e do motivo que
levam esses valores a serem interessantes para a própria
empresa. Não se tem definido, por exemplo, os valores
organizacionais como aquilo que realmente tem
significado efetivo para a realização da proposta
empresarial, para os objetivos próprios, particulares,
específicos de cada companhia. É como se quaisquer
valores servissem para qualquer empresa,
independentemente da natureza do seu negócio.
Quando questionada sobre quem deve “escolher” dos
valores corporativos, Letícia Ouro defende que é
possível determinar os valores de uma empresa pela
natureza de seu negócio, a análise de suas ações e sua
maneira de trabalhar. “Nossos valores, e o mesmo vale
para os valores das empresas, refletem-se em nossas
ações. Só fazemos aquilo que julgamos ou acreditamos ser
bom”, exemplifica, ao acrescentar que os valores de uma
empresa podem ser determinados pela observação de suas
ações. Se o que se deseja é a mudança dessas, é preciso
antes a determinação do que a empresa quer alcançar,
qual seu fim. Vale destacar que a participação da área
de Recursos Humanos é muito importante pela própria
natureza de suas funções, diretamente vinculadas às
pessoas. Em outras palavras, os valores de uma
organização refletem os valores daqueles que nela
trabalham. Sendo assim, os profissionais que tratam dos
profissionais que trabalham numa empresa, lidam
diretamente dos valores empresariais.
Participação os colaboradores – Se determinar
valores organizacionais não é um processo simples, os
colaboradores devem fazer parte dessa escolha?
“Costumamos dizer que podemos sentar pra conversar,
pensar melhor e decidir quais serão os valores adotados
numa empresa”, menciona a consultora. Para ela, todos
aqueles que trabalham na empresa possuem informações e
pontos de vista importantes na determinação do que é
preciso para que se alcance uma meta empresarial. Pois,
apesar de se utilizar atualmente o termo
“colaboradores”, aqueles que trabalham numa empresa não
simplesmente colaboram para que o serviço seja feito, ao
contrário.
O trabalho dessas pessoas é essencial para a
existência da empresa. Os trabalhadores não são
auxiliares, mas a mão-de-obra indispensável, sem a qual
o serviço não pode ser feito. Sendo assim, todos
compreendem o dia-a-dia de trabalho como ninguém.
Somente os funcionários podem determinar aquilo que é
necessário, e aquilo que pode ajudar, para que se
trabalhe com mais excelência e eficiência, no que diz
respeito ao âmbito específico das atividades que eles
realizam, ao meio em que vivem e onde convivem
diariamente.
Outro fato relevante, apontado por Letícia Ouro, é
que os valores de uma organização são compartilhados por
todos aqueles que nela trabalham. Como uma organização é
um grupo de pessoas que se une com um fim ou intuito em
comum, todos aqueles envolvidos no processo devem
compartilhar na competência e na concordância quanto o
que se deve fazer, e de que forma. “Se aqueles que atuam
numa empresa chegam à conclusão que o dia-a-dia de
trabalho rende mais quando é possível ouvir música,
trabalhar com prazer, esse será um valor empresarial.
Mesmo que os líderes empresariais discordem da sugestão,
o fato é que essa não é somente uma idéia, ou o ponto de
vista dos trabalhadores, mas se trata de um fato. Sendo
assim, repito que não há separação entre os valores de
uma empresa e os valores de todos aqueles que nela
trabalham”, conclui a consultora.