Não pegue a onda errada

por Nelson Blecher
Exame

23 de setembro de 1998

QUANDO QUER COMPRAR UM NOVO AUTOMÓVEL, O QUE você faz? Um test drive. Basta que você entre numa concessionária e passe a experimentar variados modelos antes de se decidir por aquele que o satisfaça. Infelizmente, as empresas não têm essa opção na véspera de adotar uma nova ferramenta de gestão. Leva tempo até que ela produza melhorias de desempenho ou se revele um rotundo fracasso. Ou seja, não é raro que as empresas acabem comprando gato por lebre. Duvida? Veja os resultados de uma pesquisa feita pela consultaria americana Bain & Company, com 4 137 executivos de empresas em 15 países. O que mostrou esse levantamento? Praticamente oito de cada dez dos entrevistados disseram que as ferramentas de gestão prometem muito mais do que entregam.

Os pesquisadores da Bain não constataram qualquer correlação entre sucesso financeiro e o número de práticas adotadas pelas empresas. "Companhias extremamente satisfeitas com seus resultados usam em média o mesmo número médio de ferramentas das demais", afirma o relatório da Bain. É paradoxal que, díante disso, esse número tenha crescido nesse período. Eram 12 ferramentas, em média, cinco anos atrás. Hoje são 14. O que explica tal crescimento? Provavelmente o temor de rejeitar determinada ferramenta que esteja sendo utilizada por concorrentes.

É verdade que algumas delas estão saindo de moda. A reengenharia, por exemplo, já não goza do prestígio alcançado até três anos atrás, quando se tornara uma coqueluche para oito de cada dez entrevistados. Naquela época ainda ecoava o toque de finados do planejamento estratégico, que atravessou a década passada estigmatizado como uma técnica ultrapassada. A situação se inverteu: ele agora emerge como a ferramenta favorita dos executivos mundo afora. Com as empresas priorizando estratégias de crescimento para garantir os lucros, em vez de obtê-los com downsizings e cortes de custos, é natural que técnicas como benchmarking e pagamento por desempenho tenham sido as que mais cresceram em popularidade nos últimos anos. Crescimento só se consegue com níveis de inovação constantes e funcionários motivados.

"As técnicas de gestão não são balas de prata", afirma Darrell Rigby, consultor da Bain. Antes de implementar uma, diz Rigby, é necessário fazer um balanço de seus trunfos e fraquezas. Os downsizings promoveram pequenos aumentos de lucros em muitas empresas. Mas seus efeitos colaterais foram desastrosos: queda de moral, abalos de credibilidade, enfraquecimento dos times e perda de capacidade de inovação.

Na pesquisa, 86% dos entrevistados admitem que a introdução de uma nova técnica deve sempre ser precedida por sua adaptação às peculiaridades da empresa. Uma proporção ainda maior de executivos disse que, para ser bem-sucedida, a novidade precisa receber apoio desde a cúpula até os escalões mais baixos da hierarquia. Um ponto positivo ficou evidente na pesquisa da consultoria americana: as ferramentas que hoje recebem as notas mais elevadas de satisfação são também as que vêm sendo mais utilizadas nas empresas. É esse o caso do planejamento estratégico e das técnicas para polir a missão e a visão corporativa. "É um sinal encorajador", afirma Rigby. "Sugere que os executivos estão se esforçando para colher informações sobre a eficácia das ferramentas antes de lançá-las em suas empresas."