A Empresa Brasileira: Dimensão
Humana e sua representação
por Jorge Luiz
de Carvalho
Para se situar a dimensão humana dentro das empresas, representada pelo trabalhador, bem para identificar a dimensão pedagógica, representada pelo treinamento é fundamental que se faça uma revisão evolutiva das empresas.
Esta revisão está dividida em duas partes: a primeira trata da gênesis da indústria no Brasil e sua relação com a Revolução Industrial; a segunda trata das Escolas de Administração que surgiram no mundo, com o advento da mesma Revolução Industrial e como elas se inseriram na gestão do recurso humano industrial brasileiro.
A indústria
No século XVIII a economia de todas as nações fora predominantemente agrária. A grande transformação econômica e social ainda não se dera. Mas, por volta de 1890, a industrialização da maior parte do continente estava já virtualemente completa. O poder europeu tornara-se indomável e os territórios da Ásia, África e Pacífico permaneciam nas mãos dos grandes construtores de impérios. Foi uma das maiores transformações da história pois em menos de cem anos, a Europa de latifúndios, rendeiros e artesãos tornou-se uma Europa de cidades tipicamente industriais.
Os utensílios e os dispositivos mecânicos simples foram substituídos por máquinas; a lojinha do artífice pela fábrica. O vapor e a eletricidade tomaram o lugar das fontes tradicionais de energia a saber, a água, o ar (vento) e o músculo humano ou animal. Os aldeãos tiveram que emigrar para os grandes centros que se formavam, posto que suas antigas ocupações se tornavam obsoletas ou supérfluas, tornando-se, portanto, operários da nova era, enquanto uma classe profissional de empreiteiros, financeiros e empresários, de cientistas, inventores e engenheiros se salientava e se expandia rapidamente.
Era a Revolução Industrial. Esta Revolução Industrial teve consequências dramáticas para todos os grupos de trabalhadores. Os operários nas fábricas, os mineiros de carvão, os artífices em suas oficinas e os camponeses na terra tinham de se ajustar a um modode vida inteiramente novo. Muitos operários das primeiras fábricas ficavam em completa dependência dos seus novos patrões. As diversidades que grassavam os trabalhadores, fossem eles homens, mulheres ou crianças fez com que eles tomassem a iniciativa de se organizarem para melhorar sua situação. É o surgimento do sindicalismo que se formam por ação política ou mesmo pela violência.
Um outro viés desta melhoria de qualidade de vida aparece através do desenvolvimento de institutos industriais na Grã-Bretanha que promoviam o progresso próprio dos trabalhadores através da instrução. Como cita Henderson (1969) in Caldeira (1995) Georg Birkbeck, da Universidade de Anserson em Glasgow, fica impressionado com o desejo de conhecimento entre os mecânicos que fabricavam seus aparelhos científicos, em 1799. Birkbeck inaugurou cursos livres de ciência e mecânica, que espalhou seus alunos pelo resto do mundo como proprietários e gerentes de fábricas (p.143).
O Brasil se manteve um país agrário e subdesenvolvido por mais de 400 anos desde a sua invasão pelos portugueses, em 1500. Durante o tempo em que o nosso país era uma colônia de Portugal desempenhou bravamente seu papel; quando mantinha relações comerciais extritamente com a metrópole; exercia apenas a atividade extrativista, baseando-se na devastação das florestas de pau-brasil que se transformou em belíssimas mesas e aparadores nos palácios europeus, além de fazer jus a lenda do Eldorado, tão procurada terra de riquezas mil, como ouro e pedras-preciosas. Vila Rica, atual Ouro Preto é testemunha silenciosa da violentação que nosso país sofreu em nome da coroa portuguesa.
Para que tudo isso se mantivesse sem reação, duas atitudes eram ímpostas: a proibição de qualquer publicação, escola, jornal ou tablóides que não fossem oriundos da côrte e a existência de uma atividade paralela à de tráfico de escravos, não legal como esta, porém tolerada como um mal necessário, que era o contrabando de tabaco e aguardente que ocorria durante as expedições de tráfico de escravos.
Conforme cita Caldeira (1995) os portugueses que aqui chegaram e não mais tinham o que fazer com o esgotamento das minas gerais passaram a disputar a compra das chamadas peças d'África " com os ingleses e tinham uma grande vantagem que era a aguardente de cana e tabaco produzidos na Colônia que serviam de excelente moeda de troca para a aquisição dos negros.(p.72)
Esta economia baseada em diversas triangulações comerciais começou a se abalar quando os inglêses - que começaram a se mostrar pioneiros em moralidade e não mais queriam ouvir falar de escravos - resolveram proibir o tráfico de escravos, na verdade numa tentativa de esgotar sua produção de açúcar das Antilhas que estava ameaçada pelo bloqueio imposto por Napoleão às nações da Europa, em relação aos produtos ingleses. O grande capital aplicado no tráfico de escravos, paralisado de um dia para o outro foi rapidamente transferido para investimento em fábricas, de forma que a grande motor da Revolução Industrial foi o excedente de capital e o combustível foram as grandes invenções.
Por essa época Adam Smith já escrevera A Riqueza das Nações e afirmava ser o mercado o princípio regulador da vida econômica. No Brasil escravagista seria difícil a aceitação de tal princípio de forma que José da Silva Lisboa, um funcionário público baiano que caiu nas graças de D.JoãoVI quando o rei fez uma escala em Salvador tomou a seu encargo a tarefa de dotar a economia brasileira de manuais e memórias com o objetivo de aperfeiçoar os empregados do comércio e prepará-los para o exame da Real Junta de Comércio, o que os habilitava a exercer a função de caixeiros, uma espécie de contabilista da época.
O Visconde de Cairu, como depois ficou conhecido José da Silva Lisboa escreveu um tratado denominado Princípios de Economia Política onde substitui o princípio regulador do mercado da economia européia por um outro princípio mais adequado ao trópico escravagista que dizia: "O primeiro princípio da economia política é que o soberano de cada nação deve considerar-se como chefe ou cabeça de uma vasta família, e consequentemente amparar todos os que nela estão como filhos e cooperadores da geral felicidade ".
Vemos porque a idéia de que o trabalho era a base de qualquer crescimento econômico não entrava na cabeça de nenhum senhor de escravos. Como trabalho não enobrecia o homem, então o que o fazia? O Visconde de Cairu criou uma nova escala para colocar as coisas no seu devido lugar: "Inteligência, Indústria e Trabalho são as cauzas das riquezas da nações. [. . .] Inteligência é o conhecimento das cousas e bem assim dos expedientes de proporcionar fins aos meios, para terem as empresas convenientes resultados. Indústria é a energia e constância dos homens em suas operações penosas para vencerem obstáculos e não desacorçoarem com perigos e sinistros. Trabalho é o exercício mecânico do corpo com que se executam essas operações ".
Temos, portanto, uma herança cultural de que quem estuda não trabalha e quem trabalha deve dar seu jeito para aprender o trabalho, pois caso não aprenda o chicote do feitor e dureza do pelourinho se encarregariam do adestramento. A indústria no Brasil chegou com 150 anos de atraso. Não podemos nos furtar de registrar o trabalho de Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá, que no final do século passado, vislumbrando as oportunidades de negócio que a paralização do tráfico de escravos apresentava, além de conhecer a fundo Adam Smith e Ricardo, montou um grande estaleiro, uma fundição, a primeira estrada de ferro, o primeiro banco a operar em grande escala, a primeira companhia de gás de iluminação, de navegação de cabotagem, sistema de transporte com bondes, expandindo seus negócios em seis países com dezessete empresas diferentes.
Neste momento solidifica-se a tese de que o império deve velar pelos seus súditos na medida em que D.PedroII estatiza as empresas de Mauá, no caso do Banco [do Commércio] do Brasil, ou abre empresas estatais concorrentes como a Estrada de Ferro Central do Brasil. Os portugueses dominaram o Brasil de 1500 a 1823; a partir daí, em nome do reconhecimento da soberania nacional, os ingleses passaram a explorar o Brasil até o final decáda de 20 quando então passamos dever favores aos nosso irmãos do norte, os Estados Unidos, favor este que se consolidou com o término da Segunda Guerra Mundial e a construção da Companhia Siderúrgica Nacional.
O grande desenvolvimento econômico tocado por JK durante o final da década de 50 culminou com a implantação da indústria automobilística, o que já representava um grande avanço a nível de indústria de bens duráveis. O lema - 50 anos em 5 - não era apenas ufanista, era um brado sufocado nos últimos 500 anos.
O golpe militar de 64 e o Milagre Brasileiro estabelecem uma nova ordem nas coisas procurando dar uma conotação nacionalista ao desenvolvimento do país. Agora o modelo americano parece muito forte com seus paradigmas e formas de adestramento, que será discutido no próximo capítulo. No entanto, fato importante de se notar é que essas duas diretrizes desenvolvimentistas foram patrocinadas pelo Estado brasileiro visto que, não apenas a economia privada nacional era conservadora e preferia manter os beneplácitos governamentais relativos a política agro-pecuária, mas também as grandes indústrias européias e americanas lutavam por manter a América do Sul como um consumidor de seus produtos, e não um concorrente.
Foi nessa linha que relatórios técnicos foram elaborados indicando que não havia petróleo no Brasil ou que não se poderia fundir metal nos trópicos pois a temperatura ambiente não permitiria a solidificação do mesmo. A década de 90 traz a apologia do capital apátrida, travestida de globalização; e numa economia globalizada sobra pouco espaço para soberania nacional. Como isto será tratado, dependerá do nível de insatisfação da sociedade e, principalmente, de seu preparo tecnológico e político face as novas tecnologias e, mais importante ainda, face às novas tendências.
Os modelos de gestão
É claro que existem muitos modelos ou escolas de Administração porém alguns se tornam mais evidentes ou porque se desenvolveram mais rapidamente ou por que se espalharam mais rapidamente pelo mundo ou ainda porque sofrem maiores críticas e portanto, maiores adaptações e estão ativos em nossas sociedades industriais. Assim sendo, manteremos nossa atenção no modelo clássico codificado por Taylor e por Fayol e o modelo burocrático conforme descrito por Max Weber.
Para um entendimento mais amplo seria conveniente uma leitura que situasse esses autores no seu tempo e espaço.
Modelo Clássico
Mesmo tendo iniciado sua Revolução Industrial com atraso em relação à Europa, foi nos Estados Unidos que surgiu o modelo clássico descrito por Taylor , com um paralelo na França, desenvolvido por Fayol. Chamando de Administração Científica, Taylor estabelece os princípios de organização racional do trabalho, com aplicação específica em fábricas.
Do outro lado do Atlântico, Fayol parte da totalidade empresarial para as partes e estabelece princípios universais de administração para a organização global das empresas. São esses modelos que norteiam a estruturação e o gerenciamento das empresa mundiais na quase totalidade da primeira metade do século 20.
Esses modelos são caracterizados por ter nos aspectos normativos e determinísticos a determinação da melhor forma de fazer as coisas. A dimensão humana, neste tipo de empresa vai ter o homem como Homo Economicus que tem como identificador básico a racionalidade representada pelo planejamento, organização, coordenação, comando e controle [POCCC] das atividades conforme descrito por Motta (1989).
A consequência que esta idealização traz para o treinamento se traduz numa ação muito simples já que o trabalho é padronizado e seccionado, bastanto ao operário aprender a realizar tarefas simples e unitárias, adquirindo velocidade com a prática. A motivação estaria ligado a gratificação pelo trabalho executado e seria tanto maior quanto maior fosse esse trabalho.
Espera-se também, com isso, uma maior divisão social do trabalho, um turn-over elevado, o que amplia o mercado de trabalho, reduz sálarios e aumenta as tensões sociais.
Modelo Burocrático
O termo burocracia surgiu com uma forte conotação negativa, e inicialmente poderíamos ressaltar três acepções do termo: A primeira utilizada pelo economista Vicent de Gournay, no século XVIII, para designar o poder do corpo de funcionários e empregados da administração estatal, incumbido de funções especializadas sob a monarquia absoluta e dependente do soberano. Neste sentido o termo burocracia é citado por alguns dicionários, e é usado por romancistas do século XIX e por liberais para atacar o formalismo , a altivez e o espírito corporativo da administração pública no regimes autoritários e especialmente na Alemanha.
A segunda acepção do termo, igualmente negativa, é aquela que foi desenvolvida pelo pensamento marxista. Nele os conceitos de burocracia, burocratismo e burocratização são especialmente usados para a progressiva rigidez do aparato do partido e do Estado em prejuízo das exigências de base.
A terceira acepção, emprega o termo em sentido técnico e não polêmico, tratando portanto do conjunto de estudos jurídicos e da ciência da administração alemães que versam sobre o novo aparelho prussiano. Este conceito de burocracia designa uma teoria e uma praxe da pública administração que é considerada a mais eficiente possível.
Por fim, além destas três primeiras acepções do termo, temos ainda o conceito weberiano para burocracia, que a considera como uma específica variante moderna das soluções dadas ao problema geral da administração.
Weber julga que "todo o poder procura suscitar e cultivar a fé na própria legitimidade " e que " todo o poder se manifesta e funciona como administração ".
Faz distinção entre domínio legítimo e não legítimo. E dentro do primeiro, entre domínio carismático, tradicional e legal-burocrático. Weber identifica três fatores principais que favorecem o desenvolvimento da moderna burocracia: o desenvolvimento de uma economia monetária, a existência de um sistema de racionalidade legal e a expansão qualitativa e quantitativa das funções administrativas.
Poderíamos sumariar as seguintes características da burocracia segundo Weber:
- Caráter legal das normas e regulamentos;
- Caráter formal das comunicações;
- Caráter racional e divisão do trabalho;
- Impessoalidade nas relações;
- Hierarquia de autoridade;
- Rotinas e procedimentos estandartizados;
- Competência técnica e meritocracia;
- Especialização da administração que é separada da propriedade;
- Profissionalização dos participantes; e
- Completa previsibilidade do funcionamento.
Neste modelo o homem é visto como um mal necessário e como um meio de produção, onde a criatividade e as idéias não são estimuladas e nem apropriadas ao sistema. O treinamento, portanto, estará centrado nas normas onde o profissionalismo será a mola-mestra de todo o trabalho pedagógico, desde que apoiado em bases técnicas previamente desenvolvidas. Assim sendo, não há qualquer intenção de valorização das relações interpessoais ou qualquer outra faceta socio-funcional.
O tripé formado por Taylor, Fayol e Weber tem orientado a estruturação e o gerenciamento de muitas empresas brasileiras. Baseando-se numa estrutura piramidal com centralização de decisões, o modelo empresarial brasileiro separa o pensar e o executar; existindo uma clara distinção entre os que pensam e tomam decisões e os que simplesmente executam e cumprem as decisões já pensadas. Taylor e Fayol influenciaram a fábrica, a produção e a engenharia industrial; Weber dá sua cor nos escritórios e na adminstração pública e privada.
Este modelo encontra terreno fértil para desenvolvimento na cultura brasileira na medida em que, revisitando o Visconde de Cairu vemos que: " Inteligência, Indústria e Trabalho são as cauzas das riquezas da nações. [ . . .] Inteligência é o conhecimento das cousas e bem assim dos expedientes de proporcionar fins aos meios, para terem as empresas convenientes resultados. Indústria é a energia e constância dos homens em suas operações penosas para vencerem obstáculos e não desacorçoarem com perigos e sinistros. Trabalho é o exercício mecânico do corpo com que se executam essas operações ".
Portanto, a natureza do gerente, proprietário, chefe o conduz a usar sua inteligência, deixando o trabalho para a classe dos trabalhadores. Mesmo com a bandeira da Qualidade Total, tão bem agitada nos últimos anos, os paradigmas de Taylor continuam orientando o modelo organizacional, quando Falconi (1990) se baseia em "elementos de várias fontes: emprega o método cartesiano, aproveita muito do trabalho de Taylor " . É claro que há uma maior interação entre o cadre e o chão de fábrica, na medida que todos participam do processo, desde o planejamento até a execução e controle do que é realizado. É o PDCA que se trabalha nos CCQ. A associação do descrito no tópico A empresa, associado ao que acabamos de ver neste último tópico nos leva ao pensamento de que uma evolução no processo produtivo deve estar associado a um progresso adminstrativo e, consequentemente , social.
Hoje, graças a Tecnologia de Informação e a Telecomunicações o impacto e a inevitável incorporação de novos conceitos é cada vez mais rápida. O próprio momento político pelo qual o país passa, depois dos anos negros da ditadura militar, propicia uma maior interação entre o operário e a gestão no que se refere à adminsitração de processos produtivos.
As práticas pedagógicas mais intensamente se difundem nas relações capital trabalho, abrindo espaço para algo mais que apenas o conhecimento cognitivo, mais também para o habilidades psicomotoras e para a área afetiva-social. Não obstante esses indicadores, Chiavenato (1992) chama atenção para o fato de que: enquanto nosso país viabiliza e confirma sua postura democrática, nossas empresas ainda não consequem se livrar das presas burocráticas da autocracia, da hierarquização rígida, da centralização e da imposição coercitiva de ordens e de comandos (p.27).