As outras negociações

por Jack D. Wood,Thomas R. Colosi
HSM Management

maio -junho 1998

 

Não basta prestar atenção no lado de lá da mesa. É preciso se relacionar bem com todos os interessados

O relacionamento de um negociador com os chefes da organização que representa, com os outros membros de sua equipe e com as partes externas interessadas, como a imprensa, o público e o governo, é tão importante para o sucesso do processo quanto as discussões com a outra parte. Por quê? Porque tais interlocutores têm uma enorme capacidade de afundar um acordo. Este artigo mostra como se desenvolve esse relacionamento nos bastidores e que procedimentos adotar para conduzi-lo bem. Em conversas com os superiores hierárquicos, por exemplo, o negociador deve sempre defender a outra parte, mesmo que o considerem um "vira-casaca". Dentro da equipe, precisa identificar e controlar os "estabilizadores" - em sua aversão a conflitos, eles podem "entregar o ouro para o bandido"- e os "desestabilizadores", que, em um acesso de desconfiança, tentarão sabotar o acordo obtido. Para as partes externas interessadas, tem de passar algumas informações de antemão, embora não tudo.


Negociações são sempre notícia, sejam as delegações da Rússia e da Otan discutindo o controle de armas, as equipes comerciais da Xerox e da Fuji reunidas, os acordos coletivos entre patrões e funcionários, sejam as disputas entre a Shell Oil e o Greenpeace. E, em geral, os jornalistas tratam uma negociação como uma simples diferença entre duas partes. Mas isso não é verdade.

A negociação é um processo multidimensional, e a maior parte do trabalho substancial acontece nos bastidores, em conversas com sua própria equipe em um quarto de hotel, em telefonemas e mensagens de fax urgentes à sua empresa e em press releases e entrevistas coletivas improvisadas.

Como negociador, você deve sempre procurar administrar com sucesso não só as negociações horizontais com a outra equipe, mas também:
1. As negociações verticais entre você e sua organização.
2. As negociações dentro de sua equipe.
3. As negociações com outras partes externas interessadas, como a imprensa, o publico e o governo.

 

Como reduzir a pressão
Além de saber utilizar os bastidores para se comunicar com os representantes do outro lado, especialmente sobre questões delicadas, o negociador precisa se sair bem nas sessões formais de negociação. Elas dão o tom para o sucesso ou fracasso definitivo. A negociação é, no entanto, estressante, e você pode reduzir a pressão sobre sua equipe com os seguintes comportamentos e atitudes quando estiver à mesa:
  •  
    • Mostre ter alternativas.
    • Mostre controle sobre o processo.
    • Crie uma boa primeira impressão.
    • Faça simulações da negociação.
    • Não tenha pressa.
    • Abra seu espaço.
    • Evite desestabilizar a outra equipe.
    • Informe suas intenções à outra equipe.
    • Mostre seus verdadeiros interesses.
    • Faça perguntas à outra equipe.
    • Faça anotações.
    • Faça questão de comparar suas anotações com as da outra equipe.

1. Como administrar sua organização
O limite de qualquer negociação e estabelecido pela organização que colocou você na mesa. Seu relacionamento mais importante, portanto, não é com o "outro lado", mas com sua própria empresa, com as pessoas que estão mais próximas. Elas tem autoridade para aprovar ou recusar qualquer acordo. Se esse relacionamento não for adequadamente administrado será difícil, se não impossível, lidar com a negociação em si. Pode-se administrar a hierarquia vertical da seguinte forma:

2. Como administrar sua equipe
Quando você observa a mesa de negociações, a outra equipe sempre lhe parece tão homogênea... Mas não é. Como qualquer grupo, ela reúne pessoas com visões de mundo e personalidades diferentes e tem uma estrutura formal e outra informal. Em geral, as negociações dentro de uma equipe são mais acirradas do que as negociações horizontais, com o lado oposto, e envolvem mais energia, mais emoção e uma dose muito menor de diplomacia.

A negociação é um processo de tomada de decisões e, quando as diferenças surgem dentro de uma equipe - inevitável -, costumam aparecer três tipos de pessoas: os estabilizadores, os desestabilizadores e um ou mais quase mediadores. Como identificá-los?



3. Como administrar as partes externas interessadas
O sigilo de uma negociação é importante porque os dois lados precisam se sentir seguros para explorar as alternativas sem se comprometer publicamente com posições prematuras e possivelmente embaraçosas. Sempre existem terceiros interessados - como a imprensa, o governo, o público e a concorrência - que gostariam de ter mais informações sobre o andamento das discussões. Informações tratadas de forma inadequada podem destruir o relacionamento de confiança construído com a outra equipe, colocar o seu grupo em posição desvantajosa e ameaçar o acordo em andamento.

Muitos negociadores consideram as partes externas interessadas, como a imprensa, um inconveniente ou mesmo inimigo. Eles tentam ocultar informações e evitar o contato com jornalistas. Os resultados podem ser indesejáveis, uma vez que a mídia e outras partes externas interessadas criam e tornam público um quadro distorcido e baseado em insinuações e rumores. Em geral, os negociadores devem passar algumas informações para as partes externas interessadas, mas a exposição ao público tem de ser fruto de um cuidadoso acordo entre as partes negociadoras e administrada em conjunto.


Consciência do paralelo
As negociações horizontais que ocorrem nas mesas são apenas a parte mais -visível do processo. Negociações substantivas também ocorrem em paralelo: verticalmente com sua organização, internamente com sua equipe e externamente com as partes externas interessadas. Um negociador inteligente sabe muito bem disso. O negociador consciente dessa natureza multidimensional da negociação tem muito mais condições de administrar o processo com êxito.

 

Jack D. Wood é professor de Comportamento Organizacional do IMD (lnstitute for Management Development) e PhD em Comportamento Organizacional pela Yale University. Participou de treinamento no C. G. Jung lnstitute, em Zurique, Suíça, para se tomar analista junguiano.

Thomas R. Colosi é vice-presidente de Assuntos Nacionais da American Arbitration Association, com sede em Washington, Estados Unidos.