Faça as contas - este é um mundo pequeno

por
Gazeta Mercantil

agosto/1998

 

Pesquisadores norte-americanos provam que integração de informações, como troca de e-mails pela Internet, traz eficiência.

por Nellie Andreeva, Business WeekA peça de John Gare de 1993, posteriormente filmada, "Seis Graus de Separação", popularizou a noção de que estamos conectados com o resto do mundo por uma rede de seis pessoas, ou menos. O fundamento, por sua vez, gerou o jogo de salão da cultura pop, "Seis Graus de Kevin Bacon", no qual os jogadores tentam associar quase todo mundo em Hollywood ao onipresente ator. Como diz a canção da exposição da Disneylândia: É um mundo pequeno, afinal."

Mas há um lado sério na ponderação sobre os seis graus. Dois pesquisadores da Cornell University chegaram a um modelo matemático que mostra em termos bem mais sofisticados o mundo pequeno em que vivemos. O modelo é essencialmente uma receita que visa a transformar qualquer grande rede de componentes em um "mundo pequeno".

Trata-se de algo mais do que um mero exercício intelectual. O modelo do mundo pequeno pode ser usado para melhorar a eficiência de empresas gigantes como a General Motors Corp., acelerar as transmissões pela lnternet e explicar como as doenças infecciosas se espalham e os impulsos nervosos são coordenados no cérebro.

Esse modelo "também pode ser útil para ajudar a propagar a inovação", declara lvan Manev, professor de administração na University of Maine.

A chave para transformar um mundo grande em um menor e mais eficiente está nos atalhos: indivíduos ou componentes bem conectados podem cruzar fronteiras tradicionais em uma organização. Duncan J. Watts, monitor de pós-doutorado da Columbia University, e Steven H. Strogatz, professor de matemática em Cornell, partiram do princípio de que apenas uns poucos indivíduos bem colocados podem acelerar dramaticamente o fluxo de informação em uma empresa, agindo como emissários entre andares e departamentos.

Quando Watts e Strogatz fizeram as contas, descobriram que são precisos apenas algumas poucas conexões aleatórias, ou atalhos, para fazer um pequeno mundo de um grande. Uma vez transformado, esse mundo não precisa mais de conexões adicionais. "A chave é ligar pessoas bem conectadas de cada nível", observa o professor da Boston University, James J. Collins.


A chave para uma organização eficiente é a criação de atalhos entre os diferentes níveis.

 

1 Num sistema local ordenado a comunicação ocorre apenas entre pessoas do mesmo nível  

 

  2 Atalhos aleatórios podem ser introduzidos:
pessoas encontram membros de outros níveis
no bebedouro e "passam informação"

 

3 Apenas uns poucos atalhos são necessários para criar um "mundo pequeno" onde a informação flui livremente entre o grupo., resultando no aumento da produtividade.  




Ao ser publicado em junho no jornal de divulgação científica "Nature", o modelo causou frisson entre matemáticos. "Houve um imenso interesse de pesquisadores que querem desenvolver a rede de mundo pequeno em seus vários campos", conta Watt.

O alcance é grande - matemáticos, epidemiologistas, cientistas em computação, especialistas em marketing, economistas, engenheiros e físicos estão entre as muitas pessoas que entraram em contato com os professores Watts e Strogatz.

Watts afirma que o trabalho de fato foi inspirado no conceito dos "seis graus de separação", uma teoria social desenvolvida na década de 60 por Stanley Milgram, psicólogo social da Harvard University.

Milgram selecionou aleatoriamente pessoas no Kansas e em Nebraska, e entregou-lhes uma carta endereçada a desconhecidos, residentes em Massachusetts. Eles deviam enviar a missiva a um conhecido que a levaria mais perto do "alvo". O psicólogo social de Harvard descobriu que cada participante levava uma média de apenas cinco intermediários antes que a carta atingisse o destinatário - significando que havia seis graus de separação entre a população de Massachusetts e a do Meio-Oeste.

Watts e Strogatz usaram matemática experimental - uma esotérica disciplina acadêmica que combina simulações computacionais e análise matemática - para analisar dois populares modelos de interação social. Em um, que Watts denomina "mundo do homem das cavernas", cada pessoa só conhece outras em sua vizinhança imediata. Em um segundo mundo, aleatório, cada pessoa se conecta a indivíduos espalhados no mundo.


Grandes tragédias são evitadas quando ações e pessoas estão integradas.

Na realidade, a maioria das organizações fica no meio termo entre esses dois extremos - e é aí que entra a matemática de Watts e de Strogatz. Eles começaram com a rede do homem das cavernas, "sintonizando" posteriormente o sistema, como se fosse um rádio antiquado, em direção a uma rede aleatória. Foi nesse ponto que eles descobriram que somente algumas ligações eram necessárias para transformar um grande grupo em um mundo pequeno.

Para provar sua tese, os dois pesquisadores aplicaram o modelo a três redes diferentes, totalmente mapeadas - a rede elétrica americana Western, o sistema nervoso de um verme nematódeo e os 235 mil atores na lista do lnternet Movie Database (banco de dados de atores via lnternet). Em cada sistema, eles demonstraram que apenas alguns atalhos de fato produziam um mundo pequeno.

Strogatz e Watts sustentam que essa linha de raciocínio pode impedir que catástrofes advenham, em última instância, da falta de comunicação. Como exemplo, eles apontam a horrível explosão do ônibus espacial Challenger, em 28 de janeiro de 1986, que matou sete astronautas. Descobriu-se que o acidente foi decorrente da falha de minúsculas juntas plásticas que não suportaram baixas temperaturas.

Uma comissão de investigação observou que engenheiros pouco gabaritados conheciam o problema com elementos sensíveis à temperatura, causadores da explosão, mas não tinham como tomar suas preocupações claras para quem tomava as decisões. Se houvesse atalhos entre os engenheiros e as mais altas autoridades da Agência Espacial Norte-Americana (NASA), o desastre poderia ter sido evitado, apontam os pesquisadores.

A lnternet e a disponibilidade de comunicação internacional barata por meio de e-mails (correios eletrônicos) estão tomando o mundo ainda menor. O dramaturgo John Guare espera que o processo continue. "Que todos os graus de separação sejam contabilizados em dígitos únicos" e "que todos sejamos capazes de encontrar as seis pessoas certas", ele vaticina. No mínimo, Watts e Strogatz mudaram a imagem da fofoca no trabalho - todo esse diz-que-diz-que pode ser bom para a organização como um todo.


No Brasil, consultores defedem informalidade
por Patrícia Campos Mello, de São Paulo

Mesmo sem fórmulas matemáticas, consultores brasileiros estão atentos para a importância da fluidez da comunicação
dentro das empresas. A complicada tese dos pesquisadores americanos ainda não é utilizada no Brasil. Mas os "canais
informais" de comunicação são encarados como prioridade para o sucesso das corporações.


"A comunicação eficiente, que leva a um bom clima organizacional, possibilita um aumento na produtividade", diz Laudenay Adauto de Araújo, gerente de desenvolvimento organizacional da Deloitte Touche Tohmatsu. Segundo Araújo, ultrapassar as barreiras na transmissão de informação é um diferencial até mais importante que o domínio de altas tecnologias.


Transformar as companhias em "mundos pequenos" é um sonho antigo. Nos anos 70, empresas chegaram a se fragmentar para agilizar as comunicações - na época do "small is beautiful". "Várias companhias estão investindo em novos esquemas de transmissão de informação. Acredito que dentro de três ou quatro anos, essas experiências estarão rendendo frutos", diz Luís Carlos Zanolli, consultor de recursos humanos da Hay do Brasil.

Dentro das pesquisas de clima organizacional, clareza nas comunicações é um dos itens que mais pesam para a satisfação dos funcionários. Ter um bom tráfego com chefes, liberdade para trocar informações e estar em ambiente informal são fatores muito valorizados.

Com isso, as companhias atingem altos índices de aprovação dos funcionários e conservam um fluxo de criatividade dentro da empresa. Deixam de perder pessoas e reagem com mais agilidade às oscilações do mercado.

"Azeitar os canais de informação, acelera a tomada de decisões", diz Giovani di Gesu, presidente da Watson Wyatt, consultoria gerencial. De acordo com uma pesquisa da Watson Wyatt com corporações de vários países, os líderes mais
eficientes são aqueles que têm habilidade para utilizar os canais formais e informais de comunicação. "Diretores que transitam bem na hierarquia estão na frente", diz.

Para di Gesu, o conceito básico que está por trás da tese dos pesquisadores de Cornell já é aplicado desde o início da
década de 90.

Na onda de reengenharia, um dos objetivos da redução de níveis de hierarquia era acabar com a burocracia e agilizar o
processo decisório. "A idéia era achatar organizações para facilitar a transmissão de informações", diz di Gesu.