A Cultura do Poder Individual e a Sobrevivência das Empresas em Bases Coletivas

 

Maria Cristina Lima D'Ajuz

Sócia e Consultora da
Perspectiva Consultoria,
Educação e Desenvolvimento

 

Acadêmicos, administradores, líderes, empresários, intelectuais, professores falam sobre o mundo globalizado, a interligação do todo, a visão holística, o pensamento sistêmico, a visão global e por aí vai. Este ensaio não tem a pretensão de esgotar, nem de se aprofundar no assunto. Várias colocações que serão feitas possibilitariam escrever livros e livros. Mas me proponho a fazer só um registro com o intuito de levar à reflexão. Ou será uma provocação?

 

O poder individual nas várias dimensões

A ótica que uso para a análise de necessidades, desejos, tendências e soluções organizacionais, abran-ge as dimensões política, econômica, social, educacional, tecnológica, ambiental e, a depender do te-ma, a espiritual. Vamos então trabalhar o tema numa abordagem cartesiana para fins didáticos.

Os primeiros passos da integração econômica vêm sendo caracterizados pelo surgimento de blocos como o Mercosul, União Européia, ALCA, Pacto Andino e outros. Sua concretização demanda a re- tirada de barreiras comerciais, a desregulamentação de setores da economia e a substituição de valo-res e ações atuais das lideranças dos vários países - marcadas pelo personalismo e alinhadas à neces-sidade de poder seja em nível individual, empresarial ou do Estado - por novos paradigmas e ações que permitam a efetiva sobrevivência econômica dos povos.

    Politicamente, e nos cingindo ao Brasil, contamos com uma infinidade de facções partidárias, pela exacerbada necessidade de poder, pela dificuldade de se liberar do individualismo, de saber ceder e de perceber e aproveitar pequenas diferenças, o que é justificado para o público em geral como "dife-ferenças ideológicas". Mas é o próprio poder, que leva à necessidade de união para fortalecimento na votação de causas específicas ou em épocas eleitorais, e que gera a formação de coalisões ou coliga-ções e de acordos entre lideranças políticas. Trata-se de um passo no sentido de ouvir todas as partes envolvidas e de tratar de forma mais coletiva os problemas da Nação através da integração de forças políticas. O que é lastimável é a motivação destas coalisões.

    Os problemas sociais do País são vultuosos e os indivíduos e representantes da sociedade têm difi-culdade de estabelecer acordos e prioridades, pela diversidade de necessidades, desejos e soluções. Só mais recentemente identificamos a organização dos movimentos das minorias, em paralelo às ins-tituições formais que, por missão, deveriam se dedicar à sua resolução. Cada vez mais presentes na sociedade brasileira e mundial temos grupos e entidades que sem a velocidade por eles desejada - e merecida - vão tendo aos poucos atendidas suas reivindicações, auxiliando a modificar o status quo. Entretanto, a necessidade do ser humano de deixar sua marca e não um efetivo legado de valor para a sociedade, faz com que os responsáveis pelas iniciativas existentes, governamentais ou não, com objetivos similares, não se aliem, prejudicando a integração para uma efetiva mudança social.

    A tecnologia não impõe limites às relações entre pessoas, organizações e países, nem tampouco à temporalidade das ações. A interconectividade tecnológica é um imperativo do mundo global. A in-formação é gerada em grande quantidade e depende da tecnologia para circular e ser disseminada em tempo real e disponibilizada para todos. Seu avanço é inegável, mas a lacuna entre o poderio da área tecnológica e a sua efetividade integradora deixa muito a desejar dado que a verdadeira integração não depende da máquina e sim do homem. Além disto, existe um limite à democratização da infor-mação que reside na questão monetária e cultural de nem todos poderem ter acesso a tais facilidades, gerando a formação de pessoas e grupos privilegiados que ainda são a marca dos nossos dias.

    A educação, como um processo de formação integral do homem, continua a ser entendida apenas como um direito dos indivíduos e um dever do Estado, nos seus limites convencionais, e não como responsabilidade de toda sociedade. Mas uma das grandes dificuldades é como estruturar o ensino a partir da conscientização de que todas as ciências se entrelaçam e que o aprendizado não pode ser es-tanque, direcionado a exatas, humanas ou biomédica, por exemplo. É a revisão da sistemática vigente desenvolvendo na geração atual e futura a consciência de que as ciências têm seu fundamento no to-do e não nas partes, transformando e criando um novo processo educacional.

    As religiões têm suas diferenças refletidas em denominações e práticas diversas e cultuam a deuses, ou a energias, ou a objetos, ou a pessoas. O caos em que vivemos, ou até por causa dele, faz com que se busque um sentido para a nossa existência e se necessite crer em algo tão forte e especial que seu poder transcenda ao do ser humano comum. Infelizmente alguns indivíduos se aproveitam desta ca-rência para criar a cada dia novas igrejas e seitas numa louca ambição de poder e dinheiro. Mais uma vez o ser humano, imperfeito por natureza, se deixa levar pela visão individualista, pela convicção de que só existe a sua verdade, e passa a exercer o domínio sobre o povo, cada qual procurando o seu es-paço individual, lutando pelo poder e colocando seu diferencial em questões históricas ou na relativi-dade na interpretação dos textos bíblicos.

    Na perspectiva ambiental temos necessidade da reeducação urgente da sociedade no sentido do co-nhecimento teórico e prático da "ecologia", especialmente no nível de educadores, formadores de o-pinião e líderes, empresariais ou não, objetivando capacitar pessoas para produzir mudanças em vá-rias dimensões do conhecimento. A reeducação ambiental para empresários e colaboradores, em par-ticular, visa o gerenciamento do negócio num ambiente de competitividade mas conjugado à neces-sidade de preservação ecológica, estimulando a criatividade e a inovação, através do aumento do nível de conscientização sobre suas ações no mundo atual, e ainda, disseminando a educação ambiental parra o desenvolvimento sustentável na comunidade onde cada empresa/pessoa atua.

O reconhecimento da interconectividade

    As dimensões aqui analisadas se interrelacionam, se complementam, se influenciam mutuamente no tempo e no espaço. Estão associadas inexoravelmente e esta é a maior dificuldade para o entendimen-to e a resolução das grandes equações do País e do Mundo.

    A desmedida ambição por poder e/ou "crescimento" em qualquer das dimensões pode ser fatal para a viabilização de ações em outras áreas. O exemplo mais clássico é o do crescimento econômico a qualquer preço colocando em risco a qualidade de vida. De outro lado, posições extremas e radicais de ambientalistas podem inibir as alternativas de desenvolvimento econômico. Da mesma forma, o progresso social pode ser dificultado ou facilitado pelos interesses políticos em jogo.

    O conhecimento de várias disciplinas, trabalhando áreas de fronteira e vislumbrando a interconecti-dade do todo, é um desafio que só diferentes pessoas podem levar à frente. A formação de redes para a interação de idéias e informações é essencial pois possibilita ações integradas, proporciona ali-anças e facilita a implementação de ações, o que gera resultados mais imediatos. O maior paradoxo é que quanto maior é a consciência de que a interdependência e a interdisciplinaridade são uma ver-dade inequívoca e reconhecida até pela ciência, é reforçada a ação individualista representada pelo zelo excessivo pela privacidade, pelo trato de cada problema de per si, pela presunção de saber tudo.

A Mudança das Bases de Poder nas Empresas

    De tudo o que vimos podemos constatar que um grande limitante à integração pela melhor qualidade de vida brasileira e mundial, é a força representada pelo poder individual. O poder ligado ao indivi-dualismo e representado por status, comando, dinheiro é um dos grandes entraves à integração. A ba-se do poder vigente ainda é individualista. Mas a questão não é acabar com o poder; ele é tão forte - nas raízes culturais brasileiras - e necessário - diante da essência do ser humano, que o que se preten-de é que haja uma transformação da base do poder passando de uma visão individualista para uma vi-são coletiva.

    Esta ainda é uma das maiores dificuldades a ser vencida ... e nossa grande ameaça. Por isso, uma a-nálise mais acurada nos leva a colocar como centro da ação para a transformação o ser humano, con-siderado em uma equipe/coletividade, por ser ao mesmo tempo o gerador de idéias, o criador de solu-ções, mas aquele que "adora" o poder.

    Estendendo o nosso raciocínio às empresas, tudo o que pode ser resolvido por facilidades tecnológi-cas, pela simplificação do rito burocrático, pela legislação, pelos recursos organizacionais (como es-trutura, comitês, processos de trabalho, visão compartilhada), etc. vem sendo feito. Mas a força que move as organizações ainda é a individual. O líder, o campeão da causa, o CEO, o patrocinador... .

    A consciência de que este estado de coisas deve mudar vem crescendo no mundo organizacional que hoje atua muito via equipes de trabalho pela certeza de que elas facilitam a interação e a comunicação e proporcionam ganhos de produtividade trazendo inúmeros benefícios aos resultados empresariais e o alcance de uma organização de aprendizagem.

    Está nas mãos dos líderes empresariais a solução para que se quebrem as barreiras organizacionais, dentro e fora da empresa com clientes, fornecedores e concorrentes. Mais cedo ou mais tarde a pres-são social, política, econômica etc., vai ser tão grande que o único caminho será, em função da neces-sidade de restabelecimento da cidadania, a organização se render à força da coletividade para sobre-viver direcionando seus esforços ao efetivo atendimento das demandas da sociedade.

As possibilidades de transformação

A sociedade vem se organizando e é pela ação coletiva para construção de um Planeta melhor, que vem restabelecendo a desejada qualidade de vida e que acontecem vários níveis de integração. O po-der humanitário transcende ao mundo empresarial e governamental. Para tanto será necessário estrei-tar cada vez mais as relações entre o Estado, as empresas e as entidades representativas da sociedade e, mais do que nunca, a união dos esforços.

É um desafio. O desafio de abrir mão do individual para o ganho coletivo. Passar de atitudes negati-vas tão presentes para valores como honestidade, generosidade, cooperação, tolerância, respeito hu-mano e justiça social.

O papel das empresas neste novo patamar de desenvolvimento será o de trabalhar com horizonte e metas de longo prazo, tendo por propósito atuar como elo de uma rede de abrangência mundial, cuja motivação de seus dirigentes é deixar sua marca no futuro, mas com um legado de valor em termos de qualidade de vida, incluindo a saúde humana, ambiental, planetária, paz, justiça social e cidadania.

As instituições devem contribuir como parte de um todo não completamente conhecido, que apresen-ta a diversidade em sua essência e que demanda o cultivo das relações e o aproveitamento/aceitação das diferenças, tanto no seu nível interno como externamente, fazendo com que a integração seja a chave para a convergência/entrelaçamento de missões pessoais, empresariais e comunitárias, para a competitividade e soerguimento do País e de seus parceiros na economia internacional. As empresas que souberem se colocar desta forma estarão se antecipando às transformações e à frente nas mudan-ças do novo ambiente empresarial.

 

É tempo de despertar ! A força da "empresa-time" voltada ao desenvolvimento
sustentável do País será o diferencial de competitividade !